PSICOTERAPIA - PREVENÇÃO - FORMAÇÃO

 

 

A Vida - Texto

Este texto tem como finalidade narrar uma posição com respeito às interseções, confluências e relações entre criatividade, ética e percepção. Estes fatores são indispensáveis na procura da sustentabilidade da vida nas condições de um mundo em constante movimento, da mesma forma que os espermatozóides buscam maiores níveis de complexidade do vivo na fecundação de um óvulo.

As Percepções Cognitivas como Guia para a Ação

         Partimos da afirmação de que não existe percepção que pretenda ser cognitiva e guia para a produção de ações concretas, fora das possibilidades de um observador ativo determinado por sua história num viver específico, seja este bactéria, ser humano, famílias, organizações, culturas, religiões, bosque de pinheiros ou qualquer forma de identificação e qualificação de um sistema organizado, que se perpetua no tempo.

         O vivo existe dentro de uma ecologia de percepções que nos guiam e possibilitam os comportamentos adequados a serem feitos. Isto vai se dar sempre como uma resultante entre a nossa necessidade de viver em direção a maiores graus de complexidade crescente da vida e o que esse movimento precisa registrar e conhecer para a sustentação do sistema, ou sua mutação.

         Aquilo que está fora dessa percepção cognitiva simplesmente não existe por não ser registrado pelo sistema vivo, sempre limitado por sua história que lhe dá congruência e ignorância.

         Lembro de um livro em que Humberto Maturana relata uma anedota, da época que morava em Londres, que era mais ou menos o seguinte: ele, sua mulher e um amigo foram  visitar a exposição dos trabalhos de um artista japonês em relação ao que aconteceu em Hiroshima. As pinturas expostas expressavam sofrimento, destruição e um profundo pesar por esse fato histórico. Quando saem, o amigo diz: “Que importância tem para mim o que aconteceu em Hiroshima se não conheço nenhum japonês?”.

          Esta pequena anedota reflete o que eu afirmo quando falo que são as percepções cognitivas, produzidas ao redor de experiências vividas com o que não somos nós, que poderão nos tirar de nossas ignorâncias geradas em nosso passado histórico. Isto é válido para entender nosso desinteresse ao não ter percepções cognitivas sobre: os japoneses do passado, os africanos sofridos do presente, as florestas e rios de nossas matas nativas ou o ar poluído sem percebê-lo assim por não ter convivido com outro que não seja esse.

          Considero que em relação aos nossos interesses de sustentabilidade da vida, se faz necessário forçar nossa capacidade de perceber e trocar experiências com os outros sistemas que fazem parte da rede do que existe. Se isto não acontece, e o que fica fora de nossos registros tem poder de definição das circunstâncias que afetam o rumo para onde vamos; ou mudamos nossa ecologia de percepções, ou nos destruímos, ou nos transformamos em outra coisa. Como aconteceu com a revolução celular por causa da presença do que antes era veneno – o oxigênio – e depois se tornou indispensável para a manutenção das expressões da vida aeróbica.

         Foi dito que o que constrói nossa ecologia de percepções cognitivas é a nossa história. Mas esta será passada pela peneira das circunstâncias pelas quais vivemos hoje. Esta peneira, produzida por nossas circunstâncias atuais, resgatará da experiência vivida – que não é monolítica, nem uniforme – aqueles acontecimentos desencadeantes que possam ser guias para uma ação mais efetiva na tarefa de nos conservar em nossa identidade ou de nos transformar. Tudo isso sempre numa tentativa de procurar congruências diante da imprevisibilidade das circunstâncias que devemos dar conta em nosso viver.

         Lembrando acontecimentos vividos como seres humanos, considero o ladino como língua que produziu ciências e artes específicas em nossa história . Isto resgatado na peneira das circunstâncias atuais, nos permite perceber um momento em que estivemos em convivência sinérgica, de experiência amorosa, ao interagir com as diferenças entre muçulmanos, católicos e judeus no século XV, a chamada época de ouro.  Estas lembranças me permitem enxergar as atuais guerras entre estes povos, não como fatos determinados por alguma força inevitável e sim como acontecimentos culturais. Isto é gerado por aqueles que só percebem cognitivamente o que faz parte de sua identidade e interesses apenas congruentes com partes de suas histórias, necessidades e objetivos particulares, no sentido oposto a tudo o que significa entendimento sistêmico do que existe. E isto é o que caracteriza todo fundamentalismo religioso, tecnológico, econômico, teórico, científico, etc.

         Agora bem, como conhecer aquilo que definitivamente reconhecemos como não sendo nós? Respondo, forçando as fronteiras de nossa ecologia percepto-cognitiva. Mas, porque, para quê e como?

         Porque, parece simples: diante da necessidade de sobreviver e com força nas condições de uma existência marcada pela diversidade com a qual é necessário coexistir para a manutenção da vida. Mas também há um para quê, uma finalidade, uma motivação ou interesse que dá sentido a esta tarefa do viver. Isto é mais complexo, porque depende não só de que o vivo procurará, conservadoramente, manter as condições do seu viver, e sim também o que fazemos com esse fato.

         A partir do humano, que é desde onde estou me expressando, dependerá de um sem número de variáveis determinadoras que incluem crenças, valores, determinações chamadas consciente e inconsciente, economias, políticas, tecnologias e também trabalho como área de atividade e intercâmbios. No meu caso, se dá no exercício de meu ofício como psicoterapeuta que tem como objetivo fundamental aumentar a satisfação de viver dos seres humanos, intervindo no campo de suas subjetividades.

         Neste para quê viver existem critérios, que vingando nos consensos que sempre serão coletivos, permitem que o trabalho humano gere, em rede com outros e para outros, uma finalidade que transcendendo o porque solitário nos possibilitará participar de um sentido acolhido por vários (também no sentido de variados). É ali onde se produzirão as emoções que fazem parte inseparável e fundadora das formas da vida humana que no coletivo chamamos cultura.

         Admitindo a diversidade de todo o vivo, que o real é uma construção do coletivo e que portanto, dois mais dois não nasceram quatro, que o observado depende da ecologia percepto-cognitiva de um observador sempre em ação num sistema que o constitui e constituirá, nos permitirá entender que aumentar e enriquecer as ecologias humanas, guias para a ação, se estiverem unidas ao valor da sustentação da vida, produzirão um para quê viver mais bonito.

A Ética Emocional como Guia para as Ações

         A produção de uma ética baseada na importância da sustentação da vida nos levará à estética de um viver humano mais harmonioso e satisfatório. Para isso, sem ser biólogo, estou escrevendo este texto.

         Antes de continuar, é necessário definir ética como um conjunto de idéias e emoções motivacionais, guias em nossas decisões e comportamentos, nos afastando de conteúdos morais punitivos e nos centrando em valores (como complexos de percepções cognitivas que nos norteiam). Estes sustentam satisfatoriamente a vida humana ao viver congruente com eles.

         As éticas levam embutidas as emoções dos seres humanos que expressam amor - como aceitação, tolerância e convivência com o que não somos nós - no ato de um viver que seja coerente com elas. Estas éticas, que chamaremos de emocionais, não precisam de regulamentações porque são definidoras de um caminho a seguir, independente das circunstâncias específicas da vida. Elas se nutrem de momentos de nossa história de vida experienciadas na presença do amor que surge ao conhecer o que não somos e queremos conviver. Isto gera um limite no repertório dos possíveis comportamentos que não estão pautados pelo medo de um castigo qualquer, e sim pela esperança de alcançar uma maior satisfação no cumprimento das metas que nos levem a uma vida mais harmoniosa e rica em diversidades respeitadas e convivenciáveis.

         Na reunião do mês de abril sobre as atividades das ONGs e Movimentos Sociais na construção do cenário Sócio-Ambiental Brasileiro, realizada em Curitiba e convocada pela Universidade Livre do Meio Ambiente, estava percebendo os cartazes presentes no salão de entrada do lugar onde esta se realizava. De um modo geral, estavam escritas frases mencionando nomes de pensadores contemporâneos, que em mim, produziram um sentimento de alegria e familiar intimidade com as idéias expostas. Um destes cartazes, brevemente, mencionava uma ação coordenada pela prefeitura de Curitiba relativa ao cuidado com o meio ambiente natural.

         Perguntei a algumas das pessoas que estavam ao meu lado, se conheciam os responsáveis pelo projeto, cujos nomes estavam presentes no cartaz.

         Alegria! Três minutos depois, me encontrava conversando com uma das responsáveis pelo trabalho. Sinteticamente, descrevo no que consistia: a finalidade da atividade era reflorestar, com plantas nativas da mata atlântica, solos que originariamente foram povoados por elas e os seres humanos haviam destruído. Importante objetivo, mas, tão importante quanto este era a forma imaginada para alcançá-lo. Consistia em prover mudas, que durante um tempo seriam acolhidas no interior das casas das pessoas para que, depois que estivessem em condições biológicas aceitáveis, as crianças, em regime de mutirão, seriam responsáveis pelo seu plantio.

         Nesta breve conversação com esta coordenadora, ela me diz em tom de tristeza: “pena que muitas dessas mudas foram destruídas com o passar do tempo”. Senti e falei para a minha interlocutora: “pena nada, vocês colocaram essas plantas não só no solo no qual foram acolhidas, mas também no interior da intersubjetividade e da vida cotidiana de um monte de famílias.

E, certamente, algumas se emocionaram favoravelmente com essa atividade lhes possibilitando saber quem são as plantas e árvores e com isso perceber que se algumas foram destruídas outras poderão ser plantadas”.

         Uma ética gerada ao redor do tema do valor da sustentabilidade em nosso ambiente natural e humano necessita dessa emocionalidade presente no ato de sustentar, aprendendo a conviver com o sistema que não é nós (meio ambiente natural), somente em sua aparência ou na forma de se expressar. E isto aceito desde a mecânica quântica ao budismo.

         Estas idéias, percepções cognitivas que levam embutidas emoções específicas, valores éticos, produzem atos na realização de objetivos que não necessitam de punições diante dos desvios. E isso é o que me interessa.

         As punições ou medidas para maximizar a necessidade de cuidado com o nosso meio ambiente como, por exemplo, os altos tributos às empresas que em sua atividade de produção afetam o meio ambiente, se fazem necessárias no atual estado das percepções cognitivas e valores éticos durante tantos anos afastados da experiência de interconexão e percepção sistêmica de todo o vivo. Também se faz imprescindível que, usando a criatividade necessária, utilizemos nossos recursos humanos para aumentar a percepção e desenvolver um emocionar favorável à sustentação de todo o vivo. Deste, os seres humanos fazem parte, numa relação fraterna com as outras formas de expressão da vida, e não desde uma percepção cultural que privilegia nosso poder patriarcal acima de tudo.

         É por isso que, como psicoterapeuta e não biólogo por formação, mas também por necessidade do meu próprio trabalho, utilizo técnicas, chamadas por mim, de sensibilização ecológica. Isto para incluir na vida de meus pacientes, afastados por sua condição de vida urbana, a percepção e emoção sobre nosso ambiente natural do qual formamos parte e do qual podemos aprender diretrizes para um melhor aproveitamento nas tomadas de decisões de para onde vamos e o que fazemos em nossas vidas humanas.

A Criatividade como Ato que gera Manutenção dos Sistemas e possibilitador de Mutações

         Falei da criatividade necessária para aumentar as percepções cognitivas e vou tentar me expressar melhor a respeito disso.

         Defino criatividade como uma qualidade dos sistemas vivos que lhes possibilita manter suas identidades num meio sempre em mudança, e também aproveitar as oportunidades geradas por sua condição de desequilíbrio e imprevisibilidade para produzir as modificações necessárias para continuar existindo em maiores níveis de complexidade.

         A criatividade, então, é uma qualidade de todo o vivo e, repito, não existiria vida sem criatividade e isto em todas as formas dela se expressar, desde as bactérias – em seu mundo de temperaturas, umidades e luzes – até os seres humanos e o que por eles é produzido.

         Não existe nada a ser feito para alcançar a criatividade, pois ela faz parte do se manter vivo. O que existe sim, e devemos tomar o máximo de cuidado, é uma ocultação, um mascaramento de sua existência. Isto nos atrapalha para sua utilização, na medida em que atuamos em nosso viver segundo o que distinguimos, percebemos e conhecemos.

         Como aconteceu a dificuldade de perceber algo que faz parte constitutiva de nosso estar vivos?

         Nós humanos somos seres que nascemos, vivemos, nos reproduzimos e morremos através de uma forma particular de nos relacionarmos, emocionarmos e conversarmos a respeito daquilo que nos afeta, no interior de culturas específicas.

         Foram muitos anos de cultura industrial caracterizada por uma forma de produção e convivência onde o modelo de perfeição era a máquina. Confiava-se na sua efetividade para dar conta de nosso presente e futuro, na procura de uma forma de nos organizarmos como humanidade. Pretendíamos que os acontecimentos da vida fossem previsíveis, os projetos eram passíveis de se estabelecerem com metas temporais certas e a possibilidade de erro era evitada ao máximo. Este modelo de perfeição surgido em nossa experiência com as máquinas se deslocou para o funcionamento dos seres humanos, esperando-se destes que vivessem nos mais diferentes acontecimentos da mesma forma.

         Como sabemos, a vida está fora das condições de equilíbrio e a mesma revolução tecnológica nos levou a entrar no mundo das informações cada vez mais produzidas em menor tempo e em maior quantidade. Isto nos implodiu, como humanos em nossas expectativas de nos assemelharmos às máquinas e nos voltamos para o reencontro com as necessidades de intuir e criar para dar conta dessa massa de informações muitas vezes contraditórias, poder tomar decisões e atuar.

         A presença ou ausência de criatividade ou, melhor dito, de quais comportamentos criativos efetivar, dependerá do sistema vivo precisar manter-se dentro da identidade gerada por sua história coerente, ou de aproveitar oportunidades de mudanças ao produzir percepções cognitivas novas, embora já presentes no sistema, mas ocultas por suas necessidades de congruência com o seu passado. Estas novas reorganizações de suas percepções cognitivas, como uma bússola, servirá para produzir mudanças criativas já que toda percepção cognitiva, nos seres vivos, é guia para a ação num movimento do viver complexo, que não acaba nunca.

         O mar, por exemplo, não é o mesmo mar para aquele que conviveu com ele para surfar, navegar, mergulhar ou pescar. Mas estando numa ilha e precisando chegar ao continente, o ser vivo terá que forçar as suas percepções cognitivas geradas num atuar específico sobre o mar e percebê-lo, procurando novas possibilidades de ação que lhe permitam a realização de suas metas.

         A criatividade está presente no viver e, como qualidade constante dos seres vivos, se apresentará em todo e qualquer acontecimento da vida e só poderá ser facilitada por intervenções que permitam percebê-la e exercitá-la em situações especificas, para capacitar os seres humanos   se nutrirem dessa potência destinada à produção dos fatos desejados.

         O problema com a capacidade de criar, nos seres humanos, é que foi ocultada em sua possibilidade de reconhecimento, originada pelas necessidades de previsibilidade e de não poder errar, expectativas provenientes da cultura das máquinas, geradas no período da revolução industrial e adiante.

         Sendo este o modelo de perfeição maquínico de como as coisas deveriam funcionar, as capacidades de inovar, imaginar, intuir e criar foram abafadas, de nossa possibilidade de aceitá-las e reconhecê-las. Mas, não de extinguí-las e uma prova disso é que estamos vivos.

 

Edgardo Musso

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