
PSICOTERAPIA - PREVENÇÃO - FORMAÇÃO
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As
empresas como sistemas vivos: Criatividade e intuição
A criatividade e o vivo: A criatividade está
nas raízes profundas de todo o vivo.
Não existe vida em nenhuma de suas manifestações naturais,
sejam bactérias, vegetais, animais ou seres humanos, que não conte com
a criatividade para poder continuar nas
condições
da vida que sempre se apresenta num movimento de mudança.
A criatividade, então, é uma manifestação geral do viver e
possibilita o estar vivo.
Não
existe vida sem criatividade. Se
expressa na totalidade das condições da vida cotidiana dos seres
humanos em como comemos, na sexualidade, trabalhamos, dormimos, na
utilização do tempo livre e em como adequamos nossas economias com
nossas vontades de consumo.
Esta
foi considerada, durante muito tempo, como uma qualidade especial da
produção de artistas e cientistas, atividades que se safavam das
necessidades da sociedade
industrial de controlar e prever os
acontecimentos gerados pelos comportamentos humanos.
A sociedade industrial
com sua preocupação fundamental de gerar um capital considerado como
instrumento de produção e acesso ao poder político, necessário para
garantir a não interferência em seus propósitos e metas,
enxergou
a criatividade como um perigo a ser evitado.
O modelo de homem era o modelo da máquina, podíamos confiar
nelas pois não produziriam desvios no esperável. Tudo o que gerasse
possibilidade de desvio teria que ser evitado.
Com isto afastou-se a
percepção do criativo até tal ponto que neste momento quando
trabalho com organizações a preocupação fundamental é que o
trabalho de estimulação da criatividade produza resultados concretos
na atividade produtiva das empresas.
Isto é impossível de deixar de ser.
Passando a ser um problema
de percepção de onde se manifesta e não um problema de eficácia
técnica específica.
Os métodos de estimulação da criatividade
e o tema da percepção:
em relação ao tema dos critérios de avaliação das diferentes
metodologias ou técnicas de estimulação e desenvolvimento da
criatividade consideraremos que se deve comprender que
os seres humanos não formam um todo homogêneo.
Considerar-nos como
espécie
humana é uma estrutura classificatória, um esquema para
diferenciar o vivo, mas é fundamental perceber a
diversidade
dos seres.
Os métodos não trabalham sobre a classificação e sim sobre os
seres. As diferentes metodologias trabalham algumas previlegiando o
lúdico, outras interessadas pela velocidade das decisões intelectuais,
outras as atividades de expressão artística, outras desde uma
perspectiva ecológica, outras previlegiando o trabalho em equipe ou o
indivíduo e assim por diante. O
correto seria não entender os seres humanos como simplesmente classe ou
espécie independentemente de suas caraterísticas particulares
individuais e preferências.
As metodologias e técnicas poderão ser diversas, mas unidas nos
critérios do entendimento do que significa a produção individual e
coletiva, dos valores presentes nesta produção, do que são os seres
humanos, do que são as organizações e quais são suas missões.
Dentro disso onde está a criatividade do humano, para quê serve e
porquê desenvolvê-la.
Com o acesso à pós-modernidade e aos paradigmas emergentes de
necessidade de intuir e de criar para poder participar de um mundo e
mercado que gira em torno do convívio com as diferenças, veloz, super
informado e globalizado criaram-se um
sem número de estratégias e técnicas ditas estimuladoras do
potencial de intuir e criar dos seres humanos.
Com certa
perplexidade
e algumas vezes
preocupação
vi incluir em workshops, nos quais se trabalha com
técnicas
de alto impacto emocional, pessoas que trabalham em organizações.
Seres humanos se abraçando, chorando, rindo, se sexualizando ou
agressivas, batendo em almofadas e colchões,
entendendo que dessa forma, tomando contato com suas emoções
mais profundas e libertando a energia presa dos nós bloqueadores,
estariam mais perto de sua potência criativa. Nada disso.
Estes estados emocionais
profundos despertados pela aplicação de recursos técnicos que chamo
de alto impacto não tem espaço para serem mantidos no dia a dia do
trabalho das organizações nem sequer no convívio habitual social com
os outros seres humanos.
Que a sociedade industrial tentou abafar a criatividade pelo
medo ao
não
previsível,
ao erro e a desestruturação
das hierarquias de poder e que também as
emoções
e energia dos seres humanos trilharam um caminho semelhante (porque
o ideal de funcionamento da sociedade industrial foi a máquina que
sempre faz o mesmo sem sofrer nem gozar),
não
quer dizer que aprofundando nas emoções e energia aprisionada se
liberará o potencial criativo.
Nada tem a ver a carne com o tecido com o qual a cubrimos embora
ante a percepção dos outros na sociedade civilizada possamos pensar
que formam parte da mesma coisa.
Diego Riveira Alegoría de Colifornia
Me lembro de
Henrique Pichón
Rivière me dizendo (como mestre – terapeuta e amigo): “Edgardo,
quando queiras colaborar em curar alguma coisa, lembra-te da
teoria
do furúnculo. Ao ver
um, não o esprema à seco, primeiro amoleça-o com compressas mornas (intervenções
aparentemente superficiais, que serão as mais profundas) e depois, já
amolecido, é só correr a pele para trás que o pus sairá com pouco
sangue e dor” ( se
referindo às intervenções altamente
mobilizadoras que, em seu afã de quebrar, reforçam a atividade dos
mecanismos de repressão).
Costumo dizer que quando queremos tomar contato com o
criativo devemos utilizar certos modelos do
funcionamento da natureza. Se
queremos comer banana não adianta saculejar a bananeira. Devemos provê-la
de nutrientes, cuidar de seu desenvolvimento.
Esperar quando esteja amarela, com pintas pretas e o conseguimos
perceber (o que é fundamental), simplesmente descascá-la e colocá-la
na boca. Com isto quero
dizer que
o fundamental trabalho
a ser feito com a criatividade é o de preservá-la, desenvolvê-la
desarticulando os impecílios (ervas daninhas) e conseguir percebê-la
nos acontecimentos da vida como no trabalho e tudo o mais.
Por mais medo que as culturas anteriores tenham tido da
criatividade e intuição e de incluí-las na tomada de decisões de
forma consciente e por mais estratégias que tenham articulado para detê-las
estão presentes em tudo e uma prova disso é a constatação de que
estamos vivos.
Um dos
nossos
principais propósitos ao redor do tema da criatividade com
indivíduos,
grupos ou organizações é possibilitar percebê-la presente no dia a
dia. Isto dará condições
para poder preservá-la e estimulá-la em nós mesmos e nos
trabalhadores de qualquer escalão hierárquico das organizações de
nossa sociedade. Isto sim
é possível e acreditamos que é altamente beneficioso para o
funcionamento do humano em seu conjunto.
Mas tudo isto
com calma,
por favor, porque de outra forma não será possível.
O estresse gerado nas demandas de uma cultura que previlegia a
velocidade a qualquer custo é um dos impecílios mais importantes para
o encontro com o ato criativo. “A pressa é inimiga da
perfeição”, diz um ditado popular esclarecedor para este momento de
mudança de paradigmas nas organizações.
Posso dizer, com uma experiência de mas de 20 anos trabalhando
com este tema e tomando em conta a relação
custo-benefício,
lei básica de qualquer decisão numa economia de mercado, que
os erros, os desvios de propósito, as horas perdidas por doenças,
acidentes e desinteresse no trabalho produzem um custo infinitamente
maior do que grupos humanos trabalhando com
responsabilidade individual em função de interesses coletivos,
com tempo humano para a realização das tarefas e incentivados nas suas
necessidades e desejos de imaginar, intuir e criar.
Sistemas afastados do equilíbrio: as
estruturas dissipativas e a criatividade.
Agora
bem, na realidade, vivemos num mundo humano em constante mudança.
E isto quer dizer que não existe dia igual ao outro.
Se aguçamos nossa percepção será possível ver que por mais
constantes que pareçam ser
os aconteceres do dia a dia, as nuanças externas e internas dos
sistemas vivos sempre apresentam variações que levam o sistema a
manter um maior ou menor desequilíbrio.
Os sistemas vivos estão
afastados da estabilidade absoluta sejam estes seres humanos ou qualquer
outro.
Na vida dos seres humanos a criatividade está presente nessa
necessidade constante de produzir comportamentos adequados entre nós e
nossas variações.
Quando
essas variações próprias de nossa condição de instabilidade nos
apresentam situações de crises de percurso, o desequilíbrio atinge
pontos críticos (chamados assim por Prigogine).
Nestes pontos críticos de bifurcação do caminho para onde
vamos
aparece o acionar das
estruturas
dissipativas.
Estas
atuam auto-organizando o sistema possibilitando evitar a decomposição
e o caos e criativamente
nos permitem continuar na vida com novas formas de complexidade
crescente. Como é o
caso de uma mediana empresa
que ante uma maior demanda do mercado
à seus produtos, decide se encontrar com maiores recursos de
capital, transformando-se em sociedade anônima e colocando títulos no
mercado financeiro sem perder sua historia, identidade e objetivos.
No humano encontramos a potência do criativo atuando para
preservar as identidades dos sistemas. E também para
gerar
mudanças ante uma necessidade de encontrar novas formas de
complexidade adaptativa devido às interferências de seu meio interno
ou externo.
Estamos falando de crises, de mudanças e criatividade dos
sistemas vivos sejam eles pessoas, grupos familiares, casais ou empresas.
Concordo, por considerá-los úteis, com certos conceitos gerados
na linha de trabalho inspirada por
Maturana
e Varela (teoria da
autopoiese).
Com
Guidano, pela inclusão do conceito de vínculo e afeto na análise do
comportamento do vivo e com o especialista na imprevisibilidade, Ilya
Prigogine.
O vivo, em qualquer de suas formas de se organizar, são sistemas,
insisto, afastados do equilíbrio.
A tentativa de certezas tranquilizadoras
ante mudanças criativas na vida à caminho de maiores níveis de
complexidade é algo impossível.
A quantidade de
ruídos
(interferências imponderáveis) que podem afetar o rumo de uma organização
em mudança crítica e os acoplamentos estruturais possíveis, que
devem ser realizados entre essa organização e seu meio quando esse
meio é a complexidade do humano, só nos permitirão pensar em
possibilidades de estar ou de
chegar à algum lugar como afirma a física quântica nos outros domínios
da matéria subatômica.
Portanto é
ingênua
qualquer forma de psicoterapia nos seres humanos ou de reingenharia nas
empresas que pretenda levar seus tratados a posições certas.
No que tem a ver com o tema da mudança e para onde nos dirigimos
só poderemos falar em termos de mais ou menos.
Existe a determinação, a causalidade estrutural dos históricos
de relação de um ser humano ou instituição. Isto nos permite pensar
nas identidades construídas ao longo da vida. Mas, se pensamos no tema
das mudanças dirigidas à um objetivo, os imponderáveis o transformam
em impredizível em maior
ou menor grau. O que fazer? Se perguntou Lenin na época antiga dos começos do industrialismo. Respondemos na contemporaneidade. Lembram da intuição? Aquela palavra vista com desconfiança. Essas são coisas de mulheres e bruxas, a cultura positivista dizia. Pois bem. É a velha e imortal intuição humana que será necessário resgatar para que acompanhada de uma responsável racionalidade nos dê pistas de predição ante a necessidade de tomar decisões que afetem o rumo.
Edgardo Musso Centro de Desenvolvimento da Intuição e
Criatividade Entre em contato com a gente pelo e-mail cdic@cdic.com.br |