PSICOTERAPIA - PREVENÇÃO - FORMAÇÃO

 

POR QUE MATURANA?

* Juares Soares Costa

Esta é uma pergunta que a maioria das pessoas que estão se especializando em Terapia Sistêmica de Famílias e Casais faz . Por que temos que estudar este autor? Por que um biólogo?

O paradigma sistêmico se diferencia do paradigma científico por não ver o mundo como uma máquina exata e previsível, que possa ser conhecido e representado com precisão. O mundo é entendido à partir de noções como: contexto, presença do observador, imprevisibilidade, complexidade, incerteza, alternância. O mundo não é mais passível de ser representado com exatidão. O conhecimento não é “ um espelho da natureza”.

A terapia sistêmica que conhecemos como sendo de 1ª ordem, e que predominou até o final da década de 80, avançou ao incorporar os conceitos de sistema, circularidade, feed-back, os novos conceitos de comunicação, e principalmente o contexto.

Mas de certa forma, continuou com um pé no antigo paradigma científico, representacional. O observador continuava fora do sistema observado. A terapia ainda tinha a intenção ( ou pretensão), de poder dizer como as coisas “ realmente se passavam naquela família. O terapeuta era um especialista em estudar as famÍlias, em descobrir o que era disfuncional, e em prescrever o “ remédio” que a levaria ao funcionamento adequado.

Ao longo da primeira metade do século XX, o campo da filosofia trouxe questionamentos profundos em relação a possibilidade de uma “ representação exata do mundo” pelo sujeito que observa. Cada vez mais, ficava difícil excluir a presença do observador, que modifica o fenômeno observado com sua presença. De meros processadores passivos de uma informação que viria do exterior, passamos a ser vistos como “ construtores de conhecimentos”. A Terapia de Família à partir dos anos 80, ,passou a levar em consideração, entre outras questões, a presença do observador, que constrói o trabalho terapêutico junto com a família.

A noção de construção do conhecimento já existia desde o século XVI, mas foram especialmente os estudos de Piaget ( e antes dele, Vigotsky), que ajudaram a consolidar esta nova maneira de olhar o mundo. Mas tudo que foi dito e escrito até então, era , digamos assim, suposições, hipóteses.

E aí que entra Maturana. Com seus estudos, que começaram com pesquisa sobre a percepção das cores, ele demonstrou que aquilo que era considerado apenas “ especulação filosófica”, ou hipóteses sobre o funcionamento mental, é antes de mais nada, uma conseqüência inevitável da “ biologia do ser vivo”.

Não há outro modo de funcionar possível. O conhecimento é construído pelo sujeito que conhece, dentro de sua estrutura biológica ( e social, cultural), através de sua interação com o meio. E tudo isto acontece dentro da linguagem. Linguagem que é entendida como uma forma de estar no mundo, como uma “ coordenação de coordenação de comportamentos”. E é nesta interação, dentro de um consenso, que os significados de cada coisa são construídos. Os significados não existem a priori, mas são construídos nesta interação linguística . E esta é uma das características básicas do ser humano.

Maturana também resolve uma antiga questão. A dicotomia mente-corpo que caracteriza o paradigma cartesiano( ou científico), deixa de existir. “A biologia do conhecimento...permitiu a ultrapassagem da premissa básica do pensamento ocidental, aquela que sempre opôs o biológico ao não biológico ou social ou cultural. ....A concepção de Maturana do ser vivo, dos seres humanos como sistemas fechados operacionalmente, autopoiéticos e estruturalmente determinados, inutilizou as velhas dualidades: indivíduo x sociedade, natureza x cultura, razão x emoção, objetivo x subjetivo.” ( Ribeiro A. 1998)

Enfim, este é um esboço de uma resposta mais ampla, que só poderá ser mesmo construída por cada um de nós, após nossas leituras. Cada um encontrará sua resposta, (coerentemente com

Maturana). Mas espero que ao final, todos possam dizer: - Maturana? Por que não?

(*) Juares Soares Costa, psiquiatra e terapeuta sistêmico, diretor do Instituto de Terapia de Família e Casal de Campinas