PSICOTERAPIA - PREVENÇÃO - FORMAÇÃO

 

Psicanálise

Porque a psicanálise?

Eu diria porque a psicanálise também. Para falar da psicanálise seria necessário especificar quais de suas vertentes.

Poderia dizer o que da psicanálise forma parte da minha maneira de entender a situação clínica e regula meu trabalho psicoterapêutico. Muito poderíamos falar deste tema que excedem as possibilidades desta entrevista.

Poderia dizer, a psicanálise que formou e forma parte de minha estória abrange alguns de seus pensadores, tais como Freud, Lacan, Jung, Melanie Klein, Ferenczi e Pichon Rivière. Em suma, aqueles que, independentemente à ortodoxia de seus respectivos discursos, me deram instrumentos para pensar e operar sobre uma situação terapêutica a ser resolvida.

A utilização do potencial intuitivo está intimamente ligado ao melhor conhecimento, aceitação e administração das leis do inconsciente individual e coletivo.

Carl Jung, psicanalista profundamente interessado pelo estudo das diferentes formas de expressão da vida, inclui a intuição como uma das atividades do psiquismo que funda o que é o humano. Considera a intuição conjuntamente com o pensamento, o sentimento e a sensação qualidades que permitirão criar uma tipologia dos seres humanos pela predominância e interação de cada uma destas funções.

 


Salvador Dalí
Meditacion en un harpa

 

A psicanálise nos dá instrumentos que em uma mistura, possibilitada por um interesse maior que é o de liberar ao homem das prisões de sua neurose, possa integrar-se com as outras alternativas que nos oferecem o saber terapêutico contemporâneo e nos permita entender não só a causalidade, os porquês de um padecimento psíquico, mas também de sua modificação.

A psicanálise também nos permite entender processos do psiquismo que se fazem presentes na relação terapeuta, curador-paciente que são fundamentais para os objetivos terapêuticos.

Eu vejo muitos curadores da chamada linha esotérica genuinamente interessados pelo bem de seus pacientes que encontrariam na psicanálise nutrientes fundamentais para o melhor exercício de seus objetivos clínicos.

A psicanálise também, simplesmente porque me permite compreender e operar no psiquismo dos chamados pacientes.

Porque (sem a reprodução imperialista dada nos consultórios) o Édipo, a sexualidade infantil, a vida psico-afetiva, libidinal familiar e as identificações decorrentes me permitem explicar a construção da subjetividade humana nas sociedades patriarcais.

Porque entendo que existe a determinação e a condição de sujeito (no sentido de sujeitado). Que as pessoas não só fazem o que querem e que sim vivem prisioneiras nas teias do inconsciente em seu caráter individual (pulsões e passado biográfico) e coletivo (a linguagem e os arquétipos).

Porque em meu trabalho incluo a análise da transferência, a dissolução das resistências e a interpretação dos sonhos, atos falhos, enfim das formações por intermédio das quais o inconsciente se expressa.

Agora o fundamental é porque nasci em Buenos Aires, estudei Psicologia na Faculdade de Filosofia e Letras, Universidade Nacional da rua Viamonte, baixo centro perto do porto. Bairro de poetas, pintores e bares onde discutíamos política, psicanálise e lingüística; tomávamos sopa de cebola, pão e vinho nas noites de inverno, enquanto admirávamos as prostitutas caríssimas que passeavam à procura de marinheiros estrangeiros, únicos benditos que conseguiam pagar seus cachês.

Porque no Bar Florida devorávamos as aulas de José Bleger submetendo-o a críticas infernais com a colaboração entusiasta de Oscar Masotta (o surdo).

Porque com Roberto Harari escrevi na Revista Argentina de Psicologia um trabalho militante: "O Psicólogo Clínico na Argentina" em defesa da liberdade dos psicólogos de praticar a psicanálise até o momento monopolizada pela classe médica.

Porque Herman Garcia me mostrou a arte de pensar maquínico. Admirava o galego que se sentava na máquina de escrever dez horas contínuas produzindo seu primeiro livro "Nanina", só levantando a mão esquerda do teclado para enfiar na boca as bananas que Helena Roberto tinha separado para o almoço de nossa filha Gabriela.

Enfim te direi, porque na ecologia cultural na que me formei, nas minhas primeiras épocas, não ser psicanalista, militante de preferência Trotskista-Maoísta ou Peronista de esquerda e ser um idiota, era a mesma coisa.

Mas que psicanálise então é a sua?

A resposta tem que ser procurada nos finais da década de 60, começo da década de 70 em Buenos Aires, República Argentina.

Psicanálise onde na mesa de trabalho do psicanalista, produtor de ciência, terapeuta e mestre encontram-se juntos textos de Freud, Melanie Klein, Lacan, conjuntamente com jornais que falavam das coisas de seu tempo, livros do movimento surrealista, os contos de Maldoror de Isidore-Lucien Ducasse - "O Conde de Lautreamont" e uma televisão ou rádio ligados. E que para aprender e ensinar o que era o inconsciente e suas leis víamos até o cansaço pinturas e colagens de Max Ernst, e para saber o que era a associação livre, uma das regras fundamentais da terapia psicanalítica, líamos a escrita automática dos surrealistas e o poema "Repetições" de Paul Eluard. Tínhamos um mestre. Esse mestre chamavam de Henrique e seu sobrenome era Pichon Rivière.

O que poderíamos dizer sim, é que a pretensa procura de uma verdade no discurso do chamado paciente com uma tentativa de neutralidade e assepsia fez perder muito tempo aos interessados pela psicanálise como instrumento de cura. Isso colocou os psicoterapeutas psicanalíticos em uma encruzilhada impossível de resolver.

O diálogo terapêutico é um ato que é científico, espiritual-religioso, filosófico e político. Não existe a possibilidade de gerar uma ciência, para nós que trabalhamos com o tema da subjetividade, onde não se encontre presente de uma forma clara, manifesta, as posições gerais a respeito do mundo e aos seres humanos que o terapeuta possa ter.

 

Edgardo Musso

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