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Palestra
Faixa 1 - Esquentando a
imaginação e a criatividade: a musa na inspiração
Boa noite. Para mim é uma alegria poder
falar com vocês por várias razões. Primeiro porque me encontro com várias
pessoas, que são amigos, pacientes, que também são amigos, pessoas de
minha profissão, psicanalistas, por sorte também pessoas que eu não
conheço, e me dá muita alegria conhecer. E, portanto, espero que seja uma
reunião divertida e produtiva para todos. Para vocês e também para mim.
Quando hoje de tarde eu estava pensando: de que eu falo hoje? Porque eu
não gosto de preparar as coisas de uma forma muito esquemática, então
sempre que eu tenho uma comunicação com as pessoas, com um número grande
de pessoas, eu deito. Deito na cama e fico pensando: de que vou falar? Que
coisas me interessam passar? E tenho uma certa dificuldade em poder
organizar um esquema. Tenho certa dificuldade em poder organizar um
esquema de exposição porque todo e qualquer esquema me faz fechar meu
mundo de pensar, o mundo de minhas idéias. E como tenho trinta anos de
vida acadêmica em diferentes universidades e centros científicos, eu estou
muito cansado de dar aulas, de ter que falar o que eu acho que as pessoas
acham que deve ser conversado ou transmitido.
Quando deixei a vida acadêmica e fundei o Centro de Desenvolvimento da
Intuição e Criatividade, senti um grande alívio porque trabalhando como
professor toda e qualquer comunicação me gerava a expectativa de passar um
conhecimento, só pelo fato de que esse conhecimento era válido porque era
institucionalizado por anos e anos de transmissão, dentro destas formas
acadêmicas tradicionais que tinham os conhecimentos. E esses pensamentos e
esses livros tinham cheiro de mofo e meu cérebro ficava mofado como esses
livros e como esses conhecimentos. Quando fundei o CDIC senti um grande
alívio. Porque senti: eu vou poder criar, vou poder pensar. Eu vou poder
aprender também na mesma medida que eu transmito experiência e
conhecimento às outras pessoas. Quando eu estava nos meus devaneios
pensando: de que vou falar? Ai meu Deus, alguma coisa eu tenho que
esquematizar do que eu vou falar, me liga uma mulher por telefone. Esta
pessoa que me liga tinha uma voz de uma mulher, não interessa a idade,
jovem diria, e me diz: “Posso participar da sua palestra? Posso ir? Me
interessa muito esse tema”. Eu falei: claro que sim. Te encontro lá. E
depois me disse: “Eu não sou psicóloga, eu não sou profissional dessa
área, mas tenho uma amiga que é psicóloga e gostaria de levá-la”. E tudo
isso de uma forma leve, digamos um pouquinho, assim, guardando uma certa
consideração e cerimônia. Pouca. Era bastante espontânea.
Senti dentro de mim: que alegria! Eu vou poder conversar com as
psicólogas, com os psicólogos, mas não porque sejam psicólogos ou
psicólogas, e sim porque são seres humanos e independentemente de suas
atividades profissionais são esses seres humanos com os quais eu quero
conversar e com os quais eu quero me comunicar.
A partir daí senti entusiasmo, vontade. Me liguei no computador e em cinco
minutos preparei o esquema daquilo que eu queria falar para vocês no dia
de hoje.
Faixa 2 - Aumentar a satisfação em viver: novo paradigma nas psicoterapias
Ficou claro para mim uma coisa: que não
estou a fim, definitivamente, não estou a fim de transmitir conhecimentos
eruditos fechados, dentro de uma ecologia de idéias, que forma a ecologia
de idéias dos profissionais dedicados a chamá-la, entre aspas, ou
tradicionalmente chamada saúde mental. Nem psiquiatras, nem psicólogos,
nem psicanalistas em nenhuma de suas diferentes formas, porque eu gostaria
de falar hoje de trinta anos de vida dedicada a esta tarefa de ajudar aos
seres humanos. Já não a curá-los de neuroses e nem psicoses nenhuma, e que
se entenda muito bem isto que eu vou lhes dizer: eu não quero curar a
doentes. Eu não trabalho com doentes. Eu trabalho com seres humanos. Esses
seres humanos poderão estar sofrendo. Esse sofrimento terá acolhida? Sim,
vai ter acolhida, mas a conversação não vai só girar em torno de: por que
estou sofrendo, de por que me aconteceu o que me acontece, nem de meu pai,
nem de minha mãe, de minha sexualidade infantil ou do que aconteceu nas
diferentes situações traumáticas de suas vidas. Eu não trabalho com a dor.
Eu banco a dor se for necessário. Mas meu trabalho não consiste nisso. Meu
trabalho, já faz alguns anos, consiste: em aumentar a satisfação de estar
vivos dos seres humanos.
A dor, o sofrimento, a estagnação, a paralisação e a repetição é
simplesmente algo do qual vamos ter que transitar, mas nunca para ficar
trabalhando ao redor disso. Não quero que me paguem meus honorários como
um curador de doenças. Eu quero que as pessoas se me contratam, que me
contratem para ajudá-las a viver melhor. E isto é uma coisa que tenho
definitivamente claro que surge do interior da vida acadêmica, graduação,
pós-graduação em diferentes países como Argentina, Estados Unidos,
México...Aqui fundei a pós-graduação na Universidade Santa Úrsula. Tenho
toda a minha vida dedicada a este tema. E não só do ponto de vista
pessoal, se não também que parece genético porque meu pai era diretor da
carreira de psicologia da Universidade Nacional de Buenos Aires. E dessa
família saíram três irmãos, e os três irmãos são psicoterapeutas. Parece
que os Musso levam este tema no sangue.
Faixa 3 - Os psicoterapeutas e o fim da neutralidade impossível: por uma
nova ética
Agora quero então fazer o que? Me
expressar. Expressar o que? Muitos, muitos anos de trabalho profissional.
Muitos anos e anos de trabalho clínico. Muitos anos e anos de pesquisa em
centros universitários e em outras organizações científicas também de
diferentes países. Mas não quero falar de teorias. Quero falar daquilo que
acontece com um ser humano chamado psicoterapeuta, porque esse é meu
ofício. E o que ele quer? Quando está com um paciente ele quer curar
neuroses? Ele quer curar psicoses? Se apoiando na psicanálise, ou na
Gestalt, ou em qualquer destas teorias que giram em torno de como se
constrói a subjetividade humana. Esse ser humano que trabalha, esse
chamado psicoterapeuta, esse ofício não se circunscreve jamais a essas
teorias. Porque quando esse senhor está trabalhando com este outro senhor,
com essa outra senhora, com esse grupo familiar, com essa organização, que
dizem: “Estamos precisando de uma força em nossas vidas”, esse terapeuta
tem algo dentro de si que transcende toda e qualquer teoria que pode haver
aprendido em sua formação como aluno ou em sua formação como professor.
Então, com isso quero dizer que não existe a neutralidade. Não só eu. Eu
porque lhes falo e quero formar conhecimentos ao torno desse tema. Mas não
tem nenhum destes chamados trabalhadores da subjetividade, que trabalham
com seres humanos, com o intuito de ajudá-los nas suas vidas, que não
tenha algo que como ser humano quer dos outros. Não existe isso. Isso não
quer dizer que esse psicoterapeuta tenha poderes mágicos como a gente fala
vulgarmente de fazer a cabeça de ninguém. Isso não é verdade. Ou seja,
nenhum psicoterapeuta tem esse poder.
O que se forma é um pacto, uma união para fazer um trabalho onde exista
uma cumplicidade e onde devem existir acordos que são acordos que dizem
respeito a que é ser sadio, ao que é a chamada doença, para que estamos no
mundo, por que, para que, em que consiste a nossa espiritualidade.
Acreditamos na existência de algo que transcende o nível do objetivo e o
nível do pessoal? Acreditamos que existe algo que chamamos espiritualidade
e se já acreditamos que há o que chamamos de espiritualidade, o que quer
dizer isso para ti e para mim? Eu acho que quando a gente trabalha, acho
não, acredito firmemente depois de muitos anos de experiência, que quando
a gente trabalha com outro ser humano, vulgarmente chamado paciente, não é
com um paciente que estamos trabalhando é com um pacto no qual deve
existir certas identificações, certos critérios compartilhados, certas
filosofias compartilhadas, certas formas de ver o mundo compartilhadas,
certas formas de ver a espiritualidade, a economia, a tecnologia, os
critérios pelos quais interpretamos as crianças, as mulheres, os homens,
os velhos. Pelo que queremos fazer com nossa vida, do valor que damos a
nossa vida cotidiana, etc, etc, etc. São pactos que devem ser esclarecidos
por parte dos terapeutas.
Há um antigo critério que diz que os terapeutas não devem influir
diretamente na vida do paciente. Mas isso não é verdade. Isso é uma
profunda mentira. Eu lhe falo isso não como psicoterapeuta, senão como
supervisor de psicoterapeutas. E como terapeuta de terapeutas e
psicanalista de psicanalistas...Era muito interessante quando eu me
encontrava em uma primeira, segunda ou numa terceira sessão com uma pessoa
que já tinha feito vários anos de análises, eu sabia direitinho com que
psicanalista essa pessoa havia sido analisada. Se a pessoa vinha me
falando de papai, de mamãe, das situações infantis, de que porque tal
coisa com os irmãos, me falava de sua sexualidade infantil, eu já sabia:
se analisou com um freudiano.
Se a pessoa vinha me falando de que ele era muito voraz, que queria
destruir as pessoas, ou que tinha muita inveja, ou que tinha muito ciúme,
ou que havia coisas boas...e que havia coisas más...e que o correto era a
chamada posição depressiva e ele ficava triste porque tinha que reparar os
danos que tinha feito e era claro para mim: tinha se analisado com um
psicanalista kleiniano.
Se começava a ter atos falhos e queria acender o cigarro, caía o cigarro,
ou tinha lapsos lingüísticos em vez de dizer pão, falava pau, ou se me
falava de seus sonhos e de todas as suas formações do inconsciente, eu
tinha a idéia certeira que tinha se analisado com um lacaniano.
Faixa 4 - O observado depende do observador. Como vemos a vida e o que
queremos fazer com nosso trabalho clínico
Então o que acontece? Acontece que depois
de ver isso e de ver que não existe a neutralidade neste trabalho e que
são dois seres humanos que estão juntos para o cumprimento de uma missão
x, eu fiquei muito interessado em tentar entender já não só os outros
seres humanos, mas a mim mesmo como terapeuta e tentar falar com os outros
seres humanos, chamados pacientes, o que simplesmente eu queria da vida. E
as coisas com as quais eu concordava da vida deles, e as coisas que eu não
concordava. E não tinha temor, porque eu não achava que eles eram uma
tábua rasa, puros e inocentes e eu com um poder enorme, que se chegava a
dar opinião com respeito à vida, essa opinião deveria ter um valor
sagrado. Não. Se eu falava minhas opiniões, eu dava a chance ao outro de
rebatê-las e numa relação, antes de qualquer outra coisa, de pessoa para
pessoa. Não era de que dando uma opinião sobre um tema da vida eu forjava
o entender dessa pessoa de uma forma igual a minha. Isso não existia. Meu
poder não era tão grande assim. Isso me deu muito alívio. Me deu muito
alívio e neste momento poderia dizer: as sessões do meu trabalho consistem
fundamentalmente em conversações entre as pessoas diferenciadas só por seu
ofício. Porque eu tenho esse ofício que chamamos de psicoterapeuta e o
outro tem esse papel e nesse instante comigo, tem um papel de paciente e
vamos fazer girar as coisas em torno de seus interesses. Isso sim. Não em
torno dos interesses meus. Embora os interesses meus formem parte, e as
maiores decepções que eu tive com meu trabalho, foram quando eu verifiquei
que o problema não era em termos científicos, não era o problema em termos
de “saúde mental”, meus fracassos eram em não poder convencê-los de algo
que eu achava que seria bom. Como por exemplo que viver felizes e que a
vida cotidiana desse ser humano é o mais importante que ele tem, mais
importante que sua família, mais importante que o dinheiro que ele ganha,
mais importante que seus trabalhos. Sua vida cotidiana é o mais importante
que ele tem. Assim acreditava eu e não consegui convencê-los, e aí
fracassava como terapeuta, porque não conseguia convencê-los de que esse
assunto da vida cotidiana é um assunto muito, muito importante de ter em
conta.
A partir daquilo, então o que é que a gente vai fazer? Eu vou me oferecer
ao mercado, vou ganhar o meu dinheiro como psicoterapeuta curador de
doenças? Não acredito.
Eu vou deixar muito bem explícito o que eu quero para mim, para minha vida
e para a vida dos outros. Porque não é possível que eu tenha a capacidade
dessa neutralidade, essa assepsia. Não é com respeito a não me meter na
vida dos outros. E que em algum momento de minha formação, dentro da
inocente ciência, que em algum momento passava por nossas cabeças que era
uma ciência da neutralidade, que era uma ciência da objetividade, que era
uma ciência que nos falava dos critérios de verdade. E o mais ingênuo de
tudo, que era uma ciência que nos falava que 2+2 nasceram 4. E 2+2 não
nasceram 4. Essa foi uma organização, um sistema que nós seres humanos
criamos, inventamos. Para quê? Para podermos entender melhor, para poder
trocar, para poder ter benefícios nessas trocas. 2+2 não nasceram 4. 2+2
são 4 porque nós seres humanos inventamos isso ganando concenso. Então não
existe uma verdade. E passamos da idéia de um mundo que existe e é
objetivo independente de nós a um mundo que é construído, um mundo que é
inventado por cada um de nós. E a única coisa que precisamos é consenso.
Com isto quero dizer que uma grande parte de nós fale a mesma linguagem,
como por exemplo, que a cor desta camisa é azul e desta forma todos nós
entendemos. Por que? Por consenso. Não é porque é azul, porque para um
africano pode ser “blitsch colots” ou para um inglês pode ser blue. E com
isso cuidado, porque as palavras não só designam objetos, nas palavras
estão embutidas algo muito importante que são as emoções. E nós nos
movemos, não por critérios racionais, senão a gente se movimenta por
critérios emocionais.
Faixa 5 - Meditação: música ladina e a sinergia grupal
Eu vou conseguir falar depois, mas antes
de mais nada, eu propus a mim mesmo me comunicar não só por intermédio de
minhas palavras, senão por intermédio de músicas. E eu pediria que
escutássemos duas músicas. São duas músicas que são cantadas em uma
língua, um idioma que é o ladino. O ladino é uma coisa muito bonita. Por
que é muito bonita? Porque nos remete a uma época, que é a época chamada
de Idade de Ouro, onde, na Península Ibérica, existiam cristãos, judeus e
muçulmanos juntos, tentando produzir um mundo mais bonito, do ponto de
vista das ciências, do ponto de vista das artes e tudo o que significava
cultura.
Eu pediria que escutássemos essas duas músicas, em um pequeno exercício
antes de continuar a dissertação sobre os outros temas. Porque isso forma
parte também da maneira que eu gostaria de me comunicar com vocês.
Música Ladina
Eu pediria a vocês para fazer primeiro um
exercício. Em que consiste? Consiste em fechar os olhos e respirar.
Primeiro colocar-se em uma posição o mais
cômoda possível. É uma pequena meditação, na realidade.
Então coloquemo-nos numa forma mais
cômoda possível e respiremos...
E por favor, fechem os olhos e vamos nos
adentrar em nossa respiração.
Vamos ver como respiramos...
Trocando ar novo por ar velho...
Ar novo, cor celeste, azul claro...Ar
velho, cor cinza.
Todos nós estivemos trabalhando,
estivemos pensando, nos esforçando no dia de hoje e este é um momento de
tranqüilidade, é um momento de paz, é um momento de união e a idéia é que
cada um de nós possa soltar todas essas energias gastas...
Todo esse cansaço do dia de hoje... por
intermédio de nossa respiração...
Respirando, só respirando...
Trocando ar novo, por ar velho. Trocando
ar azul claro, por ar cinza, ar preto, ar de cansaço, ar de preocupações,
muitas vezes...
E vamos soltá-las, todas elas.
Respirando...
E nessa respiração vamos deixar incluir
uma música, um som de uma época bonita, de uma época de ouro, de uma época
onde as diferentes religiões estão juntas, uma época onde se aceitavam as
diferenças, uma época onde não tinham necessidade de briga...
Nesse idioma que é o ladino, pela
Península Ibérica, do século XIII ao século XV, porque essa época, embora
época atual, época de guerras, está presente no inconsciente coletivo da
humanidade como um período onde tivemos sinergias, estivemos juntos.
E se estamos com vontade de bocejar,
bocejemos...
Descansemos e escutemos essa música...
Música Ladina (ABRE) Interprete: Fortuna, Titulo : Scalerica de oro
Sinergia,
união...
Época de ouro...
Nós também somos aquela época. Nós também
temos na memória, de nossa espécie, seres humanos dessa época...
Paz, união, alegria...
Vontade de viver e de compartilhar...
Época de uniões, época de sinergias, que
está presente na memória de nossa humanidade...
Recuperemo-la...
Bom, vamos lentamente abrir os olhos e
vamos olhar-nos.
Se necessitamos ficar em pé vamos ficar
em pé, mas é importante saber que estamos em grupo. É importante saber.
Por favor, poderiam se olhar, uns aos
outros. Vamos ver com quem estamos, quem somos. Estamos juntos. Formamos
uma rede. Vamos ver como é nossa rede.
Obrigado.
Faixa 6 - A cura em rede e a construção individual e sistêmica de um mundo
mais bonito
Bom, então vamos nos afunilar em nossos
temas. Eu quero trabalhar três temas fundamentais: um é o tema da cura,
outro é o tema da criatividade e da intuição; e outro é o tema da cultura.
Agora, não entendamos a cultura como acúmulo de conhecimentos, por favor,
de jeito nenhum. Depois eu vou falar disso: do que entendemos por cultura.
A cura, que é a motivação ou interesse pelo qual a grande maioria de nós,
e eu estou falando dos chamados terapeutas, e cuidado que por terapeuta eu
gostaria de falar num sentido amplo. Porque está bem, eu sou psicólogo,
tal universidade, tal outra, toda essa formação profissional, esse
conhecimento, da chamada: “ciência dos homens”. Mas eu diria que eu
gostaria muito e meu sonho é poder formar uma rede de cura, uma rede de
seres humanos geradores de cura para o qual pouco importa se são médicos,
se são psiquiatras ou são psicólogos, ou são psicanalistas, ou
gestaltistas, ou construtivistas ,amas do lar ou cognitivistas, não
importa nada. O que me importa é algo que sai do âmago desse ser humano,
que transpassa sua interioridade e diz-se: vamos tentar fazer um mundo
mais bonito? E vamos tentar ajudar para fazer um mundo mais bonito? Porque
as coisas não estão muito bem. Meus queridos amigos: as coisas não estão
muito bem. Mas eu acho que talvez nós consigamos criar uma rede e nós
seres humanos não somos sozinhos. Nós seres humanos vivemos em rede. Essa
rede em algum momento são as nossas famílias, em outro momento serão os
locais de trabalho, em outro momento serão os amigos. Não existe ser
humano sozinho. O ser humano não é um ser que pode definir-se dele para si
mesmo. Um ser humano vive em sistemas. Sistemas familiares, sistemas de
trabalho, sistemas culturais, sistemas econômicos, mas nós sempre devemos
enxergar-nos em rede.
Faixa 7 - Além das causas: as ecologias de idéias, a complexidade do vivo
e o construtivismo criativo na produção dos mundos.
Então, o que acontece? Acontece que, eu
posso falar da parte da qual eu sou responsável, no ofício de curar. Eu
sou psicólogo. Trabalho com esses critérios. Aprendi isso desde criança,
desde pequeno. Já antes da universidade, na minha família. E me
interessava muito sobre o tema da subjetividade, e fundamentalmente um
tema que era: Por que as coisas acontecem como acontecem nas pessoas? Tal
pessoa realiza tal comportamento ou tal escolha na sua vida. A ciência
falava: mas senhores, isso tem uma causa. A gente usava muito a palavra
determinação. Os seres humanos estão determinados. E o mais interessante é
que a psicanálise, durante muitos anos fui psicanalista, e eu sou
psicanalista, porque está na minha história e seria impossível negá-lo. É
como dizer, eu não sou argentino. Impossível. Me sai no sotaque. Da mesma
forma, ser psicanalista, eu sempre, toda a minha vida vou ser
psicanalista. Vai ser meu sotaque da minha forma de trabalhar. É inegável
minha história como psicanalista. Mas essa maldita psicanálise nos falava
que o importante era entender o determinismo: por que as coisas acontecem
como acontecem? A psicanálise tinha toda um teoria de como se fundava, ou
aliás, tem uma teoria de como se funda a subjetividade. Como o ser humano
passa da condição de ser um bicho a condição de ser um ser humano. Tudo
isso, o psicanalista entendia que girava em torno dos destinos que a
criança dava a sua sexualidade infantil. Fundamentalmente nas relações com
o pai e fundamentalmente nas relações com a mãe. Isto de carne e osso,
Lacan vem ajudar mais um pouco quando diz: o problema não é o pênis. O
problema é o falo. O falo que quer dizer? O falo é o que representa esse
pênis, marca uma ausência inalcançável de expectativa de totalidade. Não é
esse pedaço de carne que tem entre as pernas, aqueles que nós chamamos
homens. Não é o pênis, falo é o problema. O falo para nossa cultura
patriarcal quer dizer poder. Então a briga era entre funções: função
materna, função paterna, função filho. Então todos devíamos entender
porque as coisas acontecem como acontecem a partir dessa vida da
sexualidade primária, em torno daquelas figuras significativas,
fundamentalmente que habitavam no nosso lar e eram depositárias de nossos
desejos.
Também Freud falava uma coisa, existe um trabalho dele muito interessante
que tem o nome de mal estar na cultura. Freud falava: a angústia é algo do
qual a gente não vai conseguir se salvar. O sofrimento é inerente ao ser
humano. Ou seja, por que? Porque nós e fundamentalmente a satisfação de
nossas pulsões sexuais infantis, a cultura, não nos vai deixar. Se nós
desejamos a mamãe e gostaríamos de tê-la perto, nos apropriar dela até no
ponto de vista genital, a cultura vai nos dizer não. Isso se chama
incesto. Ai, que mal estar! vai sentir a criança. E Freud vai dizer em seu
livro, o mal estar na cultura, desse mal estar vamos ter que formar parte
e ninguém vai nos salvar.
Freud fala isso desde uma cultura vitoriana, onde os seres humanos se
excitavam sexualmente ao ver o tornozelo de sua mãe ou o tornozelo de uma
mulher. E neste momento, acontece que nossas crianças vêem relações
sexuais pela televisão, a qualquer hora. Existem canais televisivos
pornôs, clubes de swing, onde os pais podem ir para se divertir e isto
está sendo cada vez menos oculto. Algo que faz parte de nossa realidade
contemporânea. Se gostamos ou não gostamos, não importa. Isso se nos
manifesta como alternativas no nosso dia a dia. Portanto, a forma de
entender a sexualidade ou a importância da sexualidade na época que Freud
brilhantemente produz sua obra e que até os dias de hoje nos traz
profundos benefícios, não é a mesma cultura que é agora. Portanto os
conceitos, as idéias que fazem parte daquele grupo de idéias e de
conceitos, que tem o nome de psicanálise, que continua sendo importante em
algumas coisas, resgatemo-los como algo que faça parte de nossa história.
Mas não como algo que podemos aplicá-lo pontualmente a realidade atual.
Agora o problema fundamental não é tanto a psicanálise, senão aquela idéia
de que o homem é como é e que o importante é descobrir como somos.
Primeiro porque ninguém é como é de uma forma definitiva. A partir das
concepções sistêmicas, a partir das concepções construtivistas e
cognitivistas não racionalistas, que insisto, entendem que o mundo não é
mais 2+2 são 4, senão que o mundo é para criá-lo, para inventá-lo e se for
possível, dia a dia, vão nos dizer que o ser humano é uma matéria em
expansão até o final de seus dias. E enquanto estamos vivos, essa vida,
desde as bactérias até os seres humanos estarão em constante mudança,
porque tudo o que está vivo, vive num mundo pertencente à chamada ciência
da complexidade. E aqui temos uma pessoa maravilhosa que tem o nome de
Ilya Prigogine que vem estudar os seres humanos, a criatividade, a
imprevisibilidade, por intermédio da termodinâmica. E através da
termodinâmica podemos pensar os seres humanos. Alguns nos dizem: Como? Da
termodinâmica aos seres humanos? Sim, claro. Da termodinâmica aos seres
humanos. Como foi da matemática à bomba de Hiroshima. Porque Einstein
possibilitou essa passagem. Das matemáticas, das teorias dos sistemas
matemáticos a explodir uma parte grande do Japão. E neste momento temos um
gênio que se chama Ilya Prigogine, acompanhado de uma forma de pensar
muito interessante que aporta a escola chilena, a escola de Humberto
Maturana, que vai nos falar da vida, como uma vida onde o ser humano não
vê realidades, e na sua forma de perceber as coisas constrói a realidade
para si mesmo e em seu viver. É, então, onde devemos trabalhar, não é por
que constrói a realidade que constrói, senão ajudá-lo a inventar outras
realidades, que sejam mais harmoniosas e com as quais possa conviver de
uma maneira mais satisfatória.
Então, o que nos acontece? Àqueles que nos interessava a ciência,
pensávamos que tínhamos que estudar as causalidades, porque as coisas
aconteciam como aconteciam. E, naquela época, naquela ecologia de idéias.
Eu estou falando dos anos 60 aos anos 70, movimento pela liberdade, na
França, no ano 68, que depois repercute e desenvolve aquilo que chamamos
de hypismo e aquilo que depois se expande pela América Latina em forma de
lutas revolucionárias pela liberdade.
Nós tínhamos certos critérios e dentro da ecologia de minhas idéias,
pensem numa coisa: eu morava na Argentina, estudava na Faculdade de
Filosofia e Letras de Buenos Aires. Quem não era marxista e psicanalista
era um idiota. As ecologias das idéias se apropriavam de nossa capacidade
de pensar e tínhamos que pensar segundo as alternativas que nos dava esse
momento de nossa história. Então, tínhamos chance de pensar outra coisa
que não fosse essa? Não. Porque? Porque o Marxismo falava: bom, os
movimentos da história se dão por intermédio da luta de classes. Então, se
os movimentos da história se dão por intermédio da luta de classes e nós
não gostamos desse momento histórico, então, vamos fazer a revolução.
Vamos fazer uma luta de classes mesmo. E o que aconteceu? Nos deram bala,
bala, bala, torturas, seqüestros, assassinatos, e acabaram com essa tentativa de modificação. Nos falavam:
há um sistema, que se chama sistema do inconsciente, que determina o
comportamento dos seres humanos. Então vamos estudar Freud, vamos estudar
Lacan, e estávamos ligados ao tema. Ao mesmo tema que eu já falei 3 ou 4
vezes: que 2+2 nasceram 4. Que o mundo é. O mundo é algo sim, mas para ser
construído todos os dias e para isso devemos desenvolver nossa capacidade
de criar, de intuir e de produzir em forma de ato criativo. Não só de
pensamentos, senão de atos criativos. Então insisto, estávamos muito
preocupados com “por que as coisas acontecem como acontecem”. O tempo
passa, e não impunemente. E aparecem outras idéias, e aparecem outras
ecologias de idéias. Tanto para pensar as classes sociais, o lugar das
empresas, como os seres humanos mudam, como os seres humanos se agrupam,
como os seres humanos se curam, chamando cura entre aspas, que na
realidade é como progridem, como criam.
Faixa 8 - A cura entendida como desenvolvimento das potências e virtudes
dos seres humanos
Há uma pessoa que é considerada pelos
psicólogos tradicionais – Conselho Regional de Psicologia – marginal, como
se diz? Marginal não, alternativo. É Edward Bach, o criador das chamadas
terapias florais. E acontece que Edward Bach nos diz certa coisa que para
nós é muito importante, como por exemplo: para curar as chamadas doenças,
para curar as chamadas enfermidades, não se deve atacar a enfermidade. O
que tem que ser feito é desenvolver as virtudes opostas. Este cara que nos
fala disto é um alternativo, um inglês, médico homeopata, fora da ciência
convencional. Este é um critério epistemológico. Validador de ciência,
validador de todo tipo de operação no campo da clínica. A enfermidade não
se cura atacando-a. Então vamos ser alternativos, sem dúvida nenhuma. Que
as sociedades de psicólogos briguem conosco, que digam que somos
marginais, que digam o que eles quizerem. Mas nós vamos tentar ajudar as
pessoas. Sem dúvida. Esse é nosso compromisso.
Agora, deixamos o tema do determinismo e da causalidade e passamos ao tema
do desenvolvimento. Desenvolvimento do que? Das potências dos seres
humanos, da capacidade de perceber que estamos vivos, da criatividade e da
intuição, ou seja, daquilo que nos permita movimentar-nos mais
eficazmente. Isso, vamos trabalhar com o desenvolvimento. Não importa
tanto assim as origens, as causas. Em algum momento até que é útil
aventurarnos em esto tendo em conta que entramos em um romance ou
narrativa, mas não importa tanto assim saber por que acontecem as coisas
como nos acontecem. O que mais importa é criar instrumentos nos seres
humanos para produzir para si mesmos e para os que o rodeiam, um mundo
mais bonito. É isso o que vamos querer.
A cura fica definida então, não por um critério científico-psicopatológico
que gira em torno de conceitualizações com respeito ao que é a doença. O
critério de nosso trabalho vai ser um critério pós-moderno, vai dizer: nós
queremos ajudar e colaborar para que as pessoas estejam mais contentes e
mais satisfeitas com seu ato de viver. Esse é o objetivo estratégico. Toda
nossa capacidade, todo nosso esforço, todo nosso conhecimento adquirido
pela ciência, pela clínica, pela intuição, pela criatividade, pela
termodinâmica, pela biologia como no caso de Humberto Maturana, vai estar
dirigido a esta finalidade.
Faixa 9 - O imprevisível na vida e a criatividade versus os modelos da
cultura das máquinas
Eu falei de criatividade e falei de
intuição.
Nós fundamos uma ONG. Essa ONG tem o nome de Centro de Desenvolvimento da
Intuição e Criatividade. Por que? Porque acontece que nós vivemos numa
cultura que chamamos de cultura industrial. A cultura industrial se
apaixonou pelas máquinas. Achavam perfeitas. As máquinas funcionam com uma
perfeição absoluta. As máquinas são previsíveis. Uma máquina, segundo os
manuais dos seus fabricantes, produz tantos botões em tanto tempo ou
tantos parafusos em tanto outro tempo. Então são previsíveis. Não vão nos
trazer problemas. Vamos poder organizar nossa produção em série de uma
forma perfeitamente planejada e tudo vai dar certo segundo o esperado. Mas
acontece que as máquinas e a cultura das máquinas quizeram se deslocar
para os seres humanos tentando vê-los como máquinas. Em tudo. Por isso a
criatividade e a intuição eram dois temas que não podiam estar presentes
na vida dos seres humanos. Tinha que ser abafada porque a criatividade é
uma coisa que produz alternativas que não foram previstas. Produzem
imprevisibilidades. E não nos dá certezas. E essa falta de certeza nos
enche de preocupação. Então nós temos que, em nossos trabalhos, gerar
condições para que as pessoas não sejam imprevisíveis. Nós, seres humanos,
estávamos apaixonados pelas máquinas.
O tema do tempo é uma loucura. Está bom, temos a web. Que coisa
fantástica. Que coisa importante. Na tecnologia temos um mundo
globalizado! Que interessante! Podemos nos deslocar de um lugar a outro no
espaço, em pouco tempo. Antes demorávamos uma vida para chegar ao Japão.
Se chegávamos. Agora temos um avião que nos leva. Queremos nos comunicar
com um japonês, vamos dormir mais tarde, tudo bem, mas teclamos no ICQ e
conversamos com esse senhor. Mas esse é o tempo das máquinas e o tempo das
máquinas não é o tempo dos seres humanos. O tempo dos seres humanos é
outro. Os homens inventaram as máquinas, mas não podemos ver as máquinas
como ideal de funcionamento. A máquina prevê, a máquina dá certezas, mas a
máquina não cria, não imagina, não produz modificações para o mal, nem
tampouco para o bem. Portanto, uma cultura que idealizou a máquina como
modelo de funcionamento do humano está destinada ao fracasso. A partir
daqui, intuição e criatividade eram duas funções do humano, que estavam
sendo aniquiladas pela cultura das máquinas e fundamentalmente aniquiladas
na capacidade de perceber que somos criativos e que a criatividade é algo
que não é uma qualidade só de artistas ou de cientistas. Somos criativos
para podermos viver em um mundo que está sempre em constante movimentação.
E se não criamos alternativas de acoplar-nos produtivamente com essas
movimentações, morremos.
Faixa 10 - As empresas como produtoras da subjetividade dos seres humanos
que nelas trabalham
A criatividade e o ser criativo se vêem
presentes na vida dos seres humanos não como um benefício extraordinário.
Acontece que a criatividade é como respirar. Se não somos criativos,
insisto, morremos.
Empresas algumas vezes me pedem que os ajude a desenvolver programas de
desenvolvimento da criatividade e da intuição para seus funcionários. Eu
adoraria fazer isso porque as empresas cumprem uma função muito importante
na produção de subjetividade humana no sistema atual. As empresas são como
as famílias na produção da subjetividade e o ser humano é uma matéria em
expansão até o final de seus dias. Um ser humano que trabalha numa
empresa, que utiliza a maior parte de seu tempo no interior dessa empresa,
que trabalha para essa empresa, para os benefícios dessa empresa, é um ser
humano que está gerando produtos para essa organização e está gerando
psiquismo também. E, portanto, se em uma cultura se expressa
autoritarismo, opressão, falta de respeito, falta de consideração pelo ser
humano, esse ser humano leva isso dentro de si e o leva para o interior de
sua família. Não pode ser autoritário na empresa, desrespeitoso, e ser
condescendente, escutador em sua família, com seu filho, com sua mulher.
Isso não existe. Não tem chance disso. Então, o problema é que as empresas
formam subjetividade nos seres humanos e nesse sentido me importa muito,
ou seja, eu acho que poder trabalhar com as empresas é um privilégio muito
grande. Mas o problema é que algumas empresas têm certos paradigmas
que...Embora isso esteja mudando a passo bastante acelerado. E toda minha
esperança e meu sonho é que isso mude mais ainda.
Novamente o tema do tempo. Uma empresa muito conhecida, uma multinacional,
que por discrição eu não posso dizer o nome dela. Há algum tempo atrás, eu
estava dando uma palestra na Associação Brasileira de Recursos Humanos,
onde se juntam as pessoas que trabalham nessa área, e uma dessas empresas
me fala: “em quanto tempo, Dr. Edgardo, você consegue desenvolver a
criatividade de nossos funcionários?” Eu fiquei apavorado. Quanto tempo?
Eu falei o que sentia para essa moça. Toda a vida. E ela falou: “toda a
vida? O que é? Você está me gozando?” E eu falei: Não, não estou gozando.
Você me perguntou quanto tempo e eu tenho que lhe responder o que eu
realmente penso: toda a vida. Não sei, não apareceu mais. Me mandou um
e-mail e uma oportunidade para ver se eu dava uma palestra em São Paulo, e
essas coisas. Mas eu não consegui me entender. E adoraria poder me
entender com eles. Porque insisto: a missão social de uma empresa e o que
ela faz fundando subjetividade nos seres humanos é enorme. É muito, muito
alta.
Então, o que acontece? Nós temos um compromisso com a criatividade. E nós
temos um compromisso com a intuição. Por isso fundamos essa ONG. E foi
considerada ONG por que? Porque falávamos assim, eles não podiam não nos
considerar ONG, porque falávamos: queremos preservar a intuição e a
criatividade que são duas qualidades dos seres humanos ameaçadas de
extinção pelos paradigmas da cultura do industrialismo. Ninguém conseguiu
falar que não. Nos disseram: bom, têm o direito de ser uma ONG. Ótimo,
vamos fazer uma ONG. Vamos trabalhar com isso. E vamos participar do
movimento verde, vamos participar da carta da terra, e vamos fazer uma
coisa bonita e outra. E aí demos a cabeça contra a parede porque esse
movimento verde não existia, a carta da terra era uma carta que não
passava dos papéis, e eu tinha que trabalhar como um maluco, sem poder
dormir, para preparar um documento que depois não ia ser aproveitado. Foi
uma frustração muito grande, porque senti: não. Vamos voltar tudo para
trás. Vamos ficar quietos, vamos trabalhar só com os pacientes, com as
pessoas que estão por perto, no consultório. Então, fundamos nossa ONG,
fizemos esses esforços, tiramos alguns resultados. E neste momento se
transformou em outra coisa. Em que coisa? Qual é nosso próximo sonho?
Nosso próximo sonho consiste em formar um grupo que chamamos Grupo dos
tres C. Um grupo de cura, criatividade e cultura, para ver se podemos
formar uma rede. Não uma rede a nível mundial, ou a nível de Brasil,
formar uma rede para nos juntar, onde vocês se conheçam, passem
informações uns para os outros. E se algum dia tiver vontade de sair para
jantar com uma pessoa diferente, tenha um número para teclar e dizer:
Vamos ver tal filme? Vamos ler tal livro? Ou vamos nos encontrar para
fazer amor?. O que seja. Mas ter a chance de ter um grupo que compartilha
certas idéias e que por intermédio dessas idéias ter algum núcleo que nos
aglutine, algum núcleo em que possamos dizer: somos companheiros. Não sei
se para vocês, mas para mim essa palavra tem um significado muito
profundo. Não sei se para todo mundo tem. Somos companheiros. Não para
mudar o mundo, senão para conversar, para estudar, para ler, para comer,
para passear. Então por isso é que estou organizando o novo workshop. O
primeiro saiu muito bonito e as coisas estão dando certo.
Faixa 11 - O poder curador da ecologia profunda: meio ambiente natural e
humano
Agora dia 26 e dia 27 temos nosso segundo
encontro. É num lugar muito fantástico. George é o coordenador de uma
Organização Não Governamental, que tem o nome de Aldeias Infantis. E ele
generosamente está nos emprestando um lugar que pelo ponto de vista
ecológico é maravilhoso, porque tem plantas, que são jacas. As jacas são
plantas sagradas, porque produzem alimentos, porque produzem sombra e
produzem umidade. Então, tem um bosque de jacas e esse bosque para fazer
trabalho de sensibilização ecológica é fantástico. É um lugar
profundamente curador. E não só pela topografia do lugar, pelas plantas,
senão também pelas pessoas, pelos seres humanos que estão trabalhando
nesse lugar em um projeto que eu acho maravilhoso que é ajudar crianças
que não têm lar a ter uma vida, a melhor possível dentro dessas situações
desastrosas em que a gente vive. É uma organização que se funda na Europa,
depois da Segunda Guerra Mundial, quando tinham muitas crianças que
estavam sem pais porque que tinham morrido, e tinham morrido de uma forma
bruta, de uma forma burra que foi em uma forma de guerra. E tinham que
cuidar delas e tinham que dar a elas um destino. Então foram formadas
aldeias e nessas aldeias existem famílias compostas de crianças e de uma
mãe, que toma conta delas, tentando, no possível, reproduzir as condições
maternas que existem em nossa sociedade contemporânea. Então esse é o
lugar onde nos encontraremos e agradeço e vou agradecer toda minha vida, a
essa organização e ao George em particular, por ter nos possibilitado
trabalhar nesse lugar que é profundamente ecológico, e espiritual no
sentido nosso. Temos que falar de espiritualidade. O que chamamos
espiritualidade. Então nosso sonho é formar esse grupo. E o instrumento
para formar esse grupo é o que chamamos workshop, que são dois dias de
trabalho intenso, e onde se trabalham estes 3 temas: cura, criatividade e
cultura.
Faixa 12 - O poder das culturas e seus diferentes valores:
– A unidade de todas as coisas
– Espiritualidade e Gaia
– O ecofeminismo
Está faltando falar do tema da cultura.
Falei alguma coisa quando estava me referindo a cultura das máquinas, a
cultura do industrialismo. Mas acontece que temos outra, que está em
pedaços aparecendo dentro do que alguns chamam pós-moderno. Não sei se
gosto tanto deste termo, mas vamos adiante com ele. Pós-moderno sim. E em
que consiste essa cultura dentro do que nos interessa? Essa cultura,
primeiro e antes de qualquer outra coisa temos que entender que quando
falo de cultura, não estou falando de acúmulo de conhecimentos e de
erudição nenhuma. Os computadores são muito mais aptos para isso que
nossas mentes humanas. Quando falo de cultura, estou falando de cultura,
no sentido de Humberto Maturana e Francisco Varela, como uma rede fechada
de conversações de um grupo particular que conversa num linguajar e se
emociona a partir de determinados temas. Por exemplo, nossa cultura
patriarcal industrial nos emociona a partir das posses, ser proprietário
de coisas. Por exemplo: os carros. Estamos profundamente acreditando que
isso é uma coisa muito importante e nos emociona profundamente quando
temos um carro muito bonito, muito legal, muito forte. Até tal ponto que
eu vou contar uma pequena história. Fui convidado pela EMBRAPA a uma
reunião sobre meio ambiente e me encontro com um jovem muito inteligente,
boa pessoa. Sou psicoterapeuta, tenho trinta anos de trabalho nisto, eu
sei enxergar mais ou menos as pessoas. Esse jovem com poder na cidade de
São Paulo era judeu, inteligente, bem intencionado, estudioso
profundamente identificado com o que ele estava fazendo. E falava para mim
e para outros que estavam na reunião, dizia: os seres humanos não se
entendem, a gente verificou, por critérios biológicos, que a poluição da
cidade de São Paulo desencadeava doenças em crianças e em velhos. Doenças
pulmonares, nos que já tinham antecedentes. Mas poluição desencadeava
essas doenças e já tínhamos 7 mortos entre crianças e pessoas velhas.
Então, tomei uma decisão. Primeiro, era que o que mais poluía o ar eram os
carros. Então, de tal a tal dia vai funcionar tal placa de carro. De tal
dia a outro dia, vai funcionar tal outra placa de carro. Fazendo aquilo
que chamamos de rodízio. Ele falava para nós: as pessoas não me entendiam,
as pessoas ligavam para minha casa, dizendo que se eu não colocasse o
carro delas na rua com liberdade, elas iam mandar uma bomba para minha
casa, iam seqüestrar minha mulher. Coisas incríveis. O mundo está louco,
falava ele. E eu pensava: não, nada disso. O mundo é como ele se nos
apresenta nesse momento. O que acontece é que voces não estám enxergando
como introduzir o programa de trabalho. Pensemos uma coisa: uma montadora,
que colocou milhões e milhões de dólares em cima da mesa, para juntar
carro com símbolo de potência, de sexualidade, de virilidade, de status,
de poder. Quando tiramos o carro desse ser humano, estámos lhe tirando sua
virilidade, seu poder, e o ingenuo desavisado vai querer te matar,
logicamente. Então com isso quero dizer, que nós não temos como não viver
nessa cultura, em uma sociedade que possui essa determinada cultura.
Agora, nós temos a nossa. E essa é a que nós queremos transmitir. Em que
consiste? Antes de mais nada, consiste no conceito de ecologia profunda,
valor fundamental. O que é que falamos com ecologia profunda? Falamos que
entre o ser humano e o meio ambiente natural existe a chamada “lei da
unidade entre todas as coisas”, pela qual tudo está relacionado. E que
quando quebramos uma árvore, destruímos o ar, destruímos um rio, ou nossos
mares, estamos destruindo a nós mesmos. Por que? Pela unidade científica e
espiritual da unidade de todas as coisas. Essa afirmação vai desde a
mecanica quântica, que nos diz e sustenta desde os postulados da ciência
até aqueles que querem parar com os desastres ecológicos e o budismo como
filosofia e religião. O conceito de ecologia profunda para nós é um valor,
um conceito cultural muito importante. Outro conceito-valor muito
importante para nós é a chamada espiritualidade. É necessário resgatar a
espiritualidade dos seres humanos. Quando falamos de espiritualidade, não
estamos falando de religiões. Do ponto de vista religioso somos
profundamente ecumênicos. As religiões surgem no interior de uma cultura,
no interior da tradição de um povo e se expressam como esse povo se
expressa, e cada povo poderá ter sua tradição religiosa. O que nos
interessa é juntar daquelas chamadas religiões o que nos une na construção
de um mundo mais harmonioso, mais bonito, mais gostoso de viver nele.
Nós falamos de espiritualidade, respeitamos as chamadas religiões, mas nós
temos a nossa. Nós temos a nossa deusa, que cuidaremos constantemente e
todos os dias e chamamos Gaia. Ela é tudo aquilo que nos rodeia e Gaia
também somos nós. Porque a espiritualidade da qual estamos falando não é a
de um Deus administrador que está lá por cima, que rege o bem, o mal, o
que está certo, o que está errado. Tal espiritualidade da qual nós estamos
falando é de uma divindade que está presente em tudo o que está vivo.
Desde as bactérias até os seres humanos. Quando falo, seres humanos, falo
de nós. E essa é nossa deusa, nossa mãe, nosso planeta, a terra, a qual
vamos cuidar e da qual vamos resgatar as formas circulares, o brando, o
que contém, a criatividade, a intuição e as formas não violentas de
produção e política.
Faixa 13 - Administração dos conflitos:
as emoções pela apropriação da cultura patriarcal-pastoril e a rede
fraterna.
Isso é o que eu queria falar, e gostaria
que vocês participassem também por intermédio de perguntas ou observações.
O que cada um quiser.
(SILÊNCIO PROLONGADO NA PLATÉIA)
A conversação está aberta...
(RISOS)
Difícil falar?
(PEQUENO SILÊNCIO)
Pergunta e intervenção da platéia.
Boa noite. Não sei se prefere que fale em português ou casteliano.
Português? Entende bem o português? Meu nome é Tânia, eu trabalho com
pacificação de conflitos, quer dizer, prevenção e solução de conflitos com
base em muitos dos pilares que foram levantados aqui, que é exatamente
criatividade, formas alternativas, não vulgarizadas, claro, de trazer,
colocar os interesses das partes na mesa. Porque muitas vezes as pessoas
vêm com as suas posições e não conseguem dizer o que há por trás. Então, a
partir do momento que se coloca na mesa os interesses, você começa a
poder, através daquilo revelado, trabalhar com opções. E aí a criatividade
é muito útil para se resolver os conflitos ou para se prevenir os
conflitos. Então acho muito importante poder estar vindo aqui assistir
isso hoje e ver que existem muitas pessoas interessadas não só no
desenvolvimento da intuição, da criatividade, como na melhoria do mundo. E
como sugestão, e por isso peguei o microfone, eu estou conectada com uma
rede também. Porque, lógico, aí a gente estuda toda a parte. Eu sou
advogada, não tenho nada a ver com o meio psi, mas eu tenho sócias
psicanalistas, psicólogas, enfim, dentro dessa área de mediação e
arbitragem, que é de prevenção e solução de conflitos, e daí a gente
começa a ver toda a forma sistêmica e toda essa cultura de redes também. E
uma das redes que eu faço parte, é a da Teia da Paz que, enfim, via
internet, a gente consegue se conectar com o mundo todo e colocando formas
e possibilidades de vida melhor para nós, para os seres humanos, para os
nossos descendentes e para a terra.
Bom, a companheira falou num tema fundamental, que tem a ver com a
resolução de conflitos. A existência do conflito é inerente à vida.
Existem conflitos, insisto, desde as bactérias até os seres humanos,
passando por todas as formas da natureza se expressar. O problema é o que
fazemos com esses conflitos. Havia uma época, Maturana fala: seis mil anos
antes de Cristo, que vivíamos numa sociedade chamada matrística. E nesta
sociedade existia total comunhão entre todos os seres humanos e nossa mãe
natureza. Nós comíamos, nós nos alimentávamos, nós não tínhamos inimigos e
os conflitos eram resolvidos de uma forma onde eram entendidos como
divergência de opiniões. Ou seja, por exemplo, vamos afastar os lobos de
nosso gado, porque os lobos podem chegar a comer todas as nossas comidas!
Aí, inventamos os pastores. Os pastores foram os primeiros que disseram:
todo este alimento será nosso! E os lobos são nossos inimigos, porque
vivem comendo nossos alimentos, portanto, os mataremos!. A partir daí
começa o tema da sociedade pastoril-patriarcal, o tema de emocionar-se
pelas apropriações. Quando nos emocionamos pela apropriação, estabelecemos
então os inimigos, que em sua primeira época existiam em função dos que
queriam tirar nossos alimentos e que neste momento pode ser em função de
outras posses, como por exemplo, nossa família, nosso dinheiro no banco,
nossos carros e aí nasce o medo e a desconfiança: do pivete que está
limpando nosso carro, ou aquele que está trabalhando em nossa casa
ajudando nos afazeres domésticos, etc, etc. Então, os conflitos são
inerentes à vida.
Observem que nós necessitamos agora de companheiros, de ONGs que possam
nos tirar de nossa burrice pastoril, patriarcal. E de dirimir e resolver
esses conflitos em forma de divergências, não em forma de oposição e de
morte daquele que não opina igual a nós, como fazemos com os diferentes
lobos que se nos aparecem ao viver. Primeiro, não temos como não ter
conflitos. Nem em nosso interior, nem para com os outros seres humanos,
nem para com nada, até com as plantas. Por exemplo, eu vivo no meio do
mato, estou rodeado dessas plantas – mangueiras. As mangueiras avançam
sobre meus telhados e na época que elas criam frutos, minha casa treme e
meus pacientes dizem: o que aconteceu? São as mangas que caem, respondo.
Eu poderia contratar uma pessoa com uma motoserra e cortar tudo isso. Mas
eu não quero. Eu quero conviver com elas. Eu prefiro trocar umas cem
telhas do telhado do meu consultório a cortar essas mangueiras. É uma
opção pessoal. Com isto quero te dizer que sempre há conflito. O problema
é passar do indivíduo à rede. Por exemplo, sua colocação me deu a chance
de me colocar, que por sua vez dará a chance de outro se colocar, de outro
pensar e de outro sentir tal ou qual outra coisa. Por isso te diria:
conservemos a percepção do indivíduo. É útil. Mas ampliemos a percepção da
rede, a percepção dos vínculos, da companhia, dos companheiros, e você vai
ver como o mundo se torna mais carinhoso e menos solitário.
Faixa 14 - A importância de aproveitar o imprevisível para produzir
mudanças:
uma experiência pessoal
Pergunta
e intervenção da platéia.
Fiquei atento a sua dissertação e acontece o seguinte: eu gostaria de
saber a sua conclusão, depois de seus trinta anos de atividade científica,
de pesquisa nessa área, como o senhor responderia hoje àquela pergunta: de
acontece e como acontece?
Bom, acontece e como acontece? Eu gostei. Gostei mais de porque acontece,
de como acontece?. E eu acho que
não devemos generalizar na resposta. Vou te dar um exemplo: eu tinha que
convidar as pessoas para esta palestra. Como faço para convidar? Eu tenho
uma lista de e-mails, onde estão presentes muitas pessoas, organizações,
políticos, companheiros de trabalho, instituições científicas, amigos, o
que seja. Agora, eu peço para meu filho, porque estava todo mundo
trabalhando. Marcos (secretário) estava trabalhando, eu estava
trabalhando. Havia pouco tempo. E peço para meu filho: Alejandro faz um
favor para mim? Manda os e-mails para as pessoas que estão em nossa mala
direta. Ele pega toda a mala direta e manda toda para cada uma das
pessoas. Eu falei: o que fizeste, maluco! Passaste toda nossa mala direta
para todas as pessoas? Agora o que vai acontecer? As pessoas vão ficar
cabreiras comigo, vão achar que eu exponho o endereço eletrônico delas,
vão pensar que eu sou uma pessoa no mínimo irresponsável e que não tenho a
menor privacidade. O garoto ficou super surpreso com minha raiva, minha
indignação, por ter feito essa indiscrição. E fiquei muito preocupado com
isso. Até que no sábado, de noite, olhando as estrelas em Araras desde a
varanda de uma pequena casa que alugo, eu estava muito angustiado e
pensei: não, não é indiscrição nenhuma, eu não fiz nada, não falei da vida
íntima de ninguém. O que acontece é que eu trabalho como psicoterapeuta.
Para mim o sigilo é fundamental em todos os meus atos. Eu não falo nem
sequer o nome de uma pessoa que trabalha comigo, não falo para ninguém.
Então, com toda essa história, dentro deste trabalho, eu sentia que isso
que o garoto tinha feito, um adolescente de 20 anos, tinha sido um
desastre. Agora, em determinado momento eu senti: não, não é um desastre
nada. E o que acontece: parabéns garoto,
você ajudou a me comunicar com as pessoas como rede porque você está fora
de minha história. Ou seja, ele não é psicoterapeuta. É um adolescente de
20 anos, que nem sequer conhece nada do que tem a ver com sigilo. Então,
como ele fez? Ele mandou toda a mala direta para todas as pessoas. E aí eu
comecei a pensar em outra coisa, depois de esclarecido isto que tem a ver
com “como se comunicar”, eu fiquei
pensando: mas por que eu estou nisto, passei a me interrogar sobre
os porques? Eu estava tão
contente trabalhando na minha casa, no meio do mato, com o barulho do sapo
martelo, com os macaquinhos, e me enfiei nesse negócio de criar esta rede,
não necessitando fazer isso. E depois pensei: mentira. Eu necessito fazer
isso sim. E me lembrei do meu pai. Meu pai era uma figura muito
interessante porque ele era uma mistura de empresário, diretor do
Instituto de Psicologia da Universidade nacional de Buenos Aires,
parapsicólogo e comunista. Tudo junto. Ele sempre via o homem do século
XXI, e falava: no homem do século XXI, o amor vai ser livre, todos vamos
nos comunicar com todos, todos vamos ser amigos. O homem do século XXI vai
ser fantástico, você vai ver Edgardo. E eu que estava estudando psicologia
falava: não, não, não. E ele: sim, sim, sim. O homem do século XXI vai ser
muito mais feliz. E então percebi o que eu estava fazendo com esse esforço
de formar redes: criando o mundo que ele teria gostado de conhecer. Quando
eu percebi isso, disse para mim mesmo: olha que interessante! Eu estou
criando, tentando ajudar, colaborar para criar um mundo que ele teria
gostado de conhecer, nesta entrada do século XXI, portanto,
os por quês. Falei por telefone
para meu filho: “obrigado meu filho, Alejandro, parabéns para você”.
Você me abriu as portas de uma forma que eu não conhecia e foi
nesse como que se deu a mudança. E esta
reflexão com respeito aos porquês, com respeito a meu pai, com respeito a
minha história, foi depois de eu reconhecer a utilidade e legitimidade de
seu ato. Aí liguei para ele e pedi mil desculpas, falei que o adorava e
que tinha sido legal, que ele havia me ajudado nesse problema. A vergonha,
o medo a indiscrição, a falta de respeito a intimidade do outro é um tema
meu, de minha vida, gerado nas carateristicas de meu trabalho.
Faixa 15 - Pedaços de uma história na percepção sempre parcial dos
sistemas: uma experiência pessoal
Pergunta
e intervenção da platéia.
É o seguinte: achei bastante interessante, muito elucidativo, com muito
conteúdo sua história de vida. Eu queria que você falasse um pouco a
partir de que momento e a partir de que marco, desenvolveu em você essa
vontade de passar toda essa bagagem do teu conhecimento acadêmico,
científico, para a coisa mais humanista, voltado à uma causa, dessa rede.
A partir de que marco isso surgiu ou se você já traz isso desde que você
começou. Acho que isso vem com a maturidade e com a experiência mesmo. Eu
só queria saber da tua história. A partir de que momento isso surgiu?
Bom, o interesse por aquilo que está além de meu umbigo faz muitos anos.
Surgem na casa do papai e da mamãe e continua nas universidades com os que
foram mestres. Quem foi meu mestre fundamentalmente lá na Argentina, o
chamávamos Henrique. Seu sobrenome era Pichón Rivière. E Henrique sempre
falava para mim: quando tu quizeres entender um paciente, não olhe só para
ele, vá para sua casa, converse com sua mulher, converse com sua
empregada, se tiver, e olhe para o cachorro. Preste muita atenção no que o
cachorro faz. Além de ver o cachorro, a mulher, a empregada, tudo isso,
falava também: olhe para a sociedade! A sociedade na qual tu estás. O que
essa sociedade está te dizendo e tu a eles. Ou seja, com isto quero te
dizer que o interesse pelos seres humanos em percepções sistêmicas e em
rede é uma coisa antiga.
Agora, eu fiquei recolhido durante mais ou menos oito, nove anos. Quando
eu acabei com a universidade, ou a universidade acabou comigo, fui à
praia. Eu queria ajudar os rapazes da praia. Fantástico porque eu ia à
praia com meu filho. Ele era adolescente, pegava onda. Eu estava na praia
tomando água de côco, tudo legal e as pessoas me solicitavam ajuda. E qual
era a ajuda? Qual era o tema? O tema era drogas. Eu diria: eu não tenho
nada contra as drogas, eu tenho algo contra que os seres humanos se
machuquem. Isso pode ser feito de qualquer forma. Com droga, sem droga,
com isto ou com outra coisa. Mas que a droga ajuda, ajuda. E pode ajudar
muito a machucar muito e muito feio. Mas essa chamada substância não era o
problema fundamental. O problema eram os garotos que criavam a identidade
de viciados. Porque criando a identidade de viciados, era aí que
aconteciam as coisas ruins. Porque eles formam uma identidade chamada
negativa, se marginalizam e depois atacam e depois sofrem e são atacados e
entram num mundo realmente muito perigoso para ele e para os seres humanos
que o rodeiam. Então eu trabalhava na praia e dava remédios florais aos
rapazes. Mas eu não
tinha percebido
que no sistema praia observado
desde outra perspectiva haviam traficantes e que os traficantes
eram os donos políticos do pedaço. E os traficantes pensavam: o que esse
argentino maluco está fazendo aí, dizendo aos garotos que não são viciados
e que tal coisa ou outra quando nós queremos criar a cultura do viciado,
porque por intermédio disso é que obtemos nossos clientes. Me ameaçaram, a
mim e a meu filho. Aí fiquei muito triste e saí da praia. E senti: além
das universidades esta tampouco é minha praia. Aí saí. Fiquei muito
solitário durante 8 anos, na minha casa. Tenho o privilégio de morar no
meio do mato. E durante 8 anos escolhi meus interlocutores, que alguns
deles estão aqui: Glória, Ilene, Katia, Bicalho, Marita. São pessoas que
me acompanharam durante esses 8 anos. Então eu conversava com um grupo
muito reduzido de pessoas, mas que eu escolhia conversar com eles porque
eu me sentia bem conversando com eles, meus interlocutores.
Um dia, eu já estava sentindo que necessitava conversar com mais pessoas.
Olhava no espelho, os cabelos iam ficando brancos, e eu dizia a mim mesmo:
não, espera aí, não pode ser, isto está muito bem, ficando aqui com tempo
para ler, estudar, falar com meus alunos mais imediatos, mas eu tenho que
fazer algumas coisas antes de morrer...Aí chegaram algumas pessoas na
minha vida. Um alemão vem a minha casa e me tira. E me diz: vou te levar
para que veja um lugar sagrado, para ver qual a sua opinião. Isso por um
lado. Por outro lado ia gerando em mim essa vontade de conversar com as
pessoas. E estou aqui.
Faixa 16 - Meditação com música: desenvolvendo a consciência do
ecofeminismo e da ecologia profunda.
E esse workshop, e essa minha vida, e
essas culturas que estamos querendo transmitir, têm um ideal que como
falei é ecofeminista e de ecologia profunda e que está presente também em
uma música que eu gostaria que escutássemos para podermos nos separar pelo
menos por agora.
Vamos
escutar essa música respirando e prestando atenção especial à respiração.
Primeiro ficando frouxos, cômodos, o mais cômodo possível.
É uma música de flauta, inspirada numa
tribo que são dos índios navajos, perto do Grand Canyon, nos Estados
Unidos.
Então vamos respirar profundo,
profundo...
E vamos nos concentrar em nossa mãe,
nossa deusa, nosso planeta, a terra – Gaia e respiremos com o âmago
dela...
MÚSICA DE FLAUTA (ABRE)
Interprete :
R.Carlos Nakai, Canyon
Trilogi Native, American Flaute Music
Respirando...respirando...
Soltando ar velho...trocando-o por ar
novo com esse som que sai de dentro do nosso âmago de nossa deusa, nossa
mãe, nosso planeta, a terra...
Bom, vamos abrindo os olhos...
Boa noite, que durmamos bem e que amanhã
seja um dia bonito.
MÚSICA EM LADINO (ABRE)
Interprete : Fortuna,
Musica: Daile a cenar
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