PSICOTERAPIA - PREVENÇÃO - FORMAÇÃO

 

Palestra: Aumentando a Satisfação em Viver

– Do interior da ciência ao coletivo –

De Sigmund Freud e Sandor Ferenczi a Humberto Maturana e Dalai Lama

 

Palestra

 

Faixa 1 - Esquentando a imaginação e a criatividade: a musa na inspiração

 

       Boa noite. Para mim é uma alegria poder falar com vocês por várias razões. Primeiro porque me encontro com várias pessoas, que são amigos, pacientes, que também são amigos, pessoas de minha profissão, psicanalistas, por sorte também pessoas que eu não conheço, e me dá muita alegria conhecer. E, portanto, espero que seja uma reunião divertida e produtiva para todos. Para vocês e também para mim.


       Quando hoje de tarde eu estava pensando: de que eu falo hoje? Porque eu não gosto de preparar as coisas de uma forma muito esquemática, então sempre que eu tenho uma comunicação com as pessoas, com um número grande de pessoas, eu deito. Deito na cama e fico pensando: de que vou falar? Que coisas me interessam passar? E tenho uma certa dificuldade em poder organizar um esquema. Tenho certa dificuldade em poder organizar um esquema de exposição porque todo e qualquer esquema me faz fechar meu mundo de pensar, o mundo de minhas idéias. E como tenho trinta anos de vida acadêmica em diferentes universidades e centros científicos, eu estou muito cansado de dar aulas, de ter que falar o que eu acho que as pessoas acham que deve ser conversado ou transmitido.
 

       Quando deixei a vida acadêmica e fundei o Centro de Desenvolvimento da Intuição e Criatividade, senti um grande alívio porque trabalhando como professor toda e qualquer comunicação me gerava a expectativa de passar um conhecimento, só pelo fato de que esse conhecimento era válido porque era institucionalizado por anos e anos de transmissão, dentro destas formas acadêmicas tradicionais que tinham os conhecimentos. E esses pensamentos e esses livros tinham cheiro de mofo e meu cérebro ficava mofado como esses livros e como esses conhecimentos. Quando fundei o CDIC senti um grande alívio. Porque senti: eu vou poder criar, vou poder pensar. Eu vou poder aprender também na mesma medida que eu transmito experiência e conhecimento às outras pessoas. Quando eu estava nos meus devaneios pensando: de que vou falar? Ai meu Deus, alguma coisa eu tenho que esquematizar do que eu vou falar, me liga uma mulher por telefone. Esta pessoa que me liga tinha uma voz de uma mulher, não interessa a idade, jovem diria, e me diz: “Posso participar da sua palestra? Posso ir? Me interessa muito esse tema”. Eu falei: claro que sim. Te encontro lá. E depois me disse: “Eu não sou psicóloga, eu não sou profissional dessa área, mas tenho uma amiga que é psicóloga e gostaria de levá-la”. E tudo isso de uma forma leve, digamos um pouquinho, assim, guardando uma certa consideração e cerimônia. Pouca. Era bastante espontânea.


       Senti dentro de mim: que alegria! Eu vou poder conversar com as psicólogas, com os psicólogos, mas não porque sejam psicólogos ou psicólogas, e sim porque são seres humanos e independentemente de suas atividades profissionais são esses seres humanos com os quais eu quero conversar e com os quais eu quero me comunicar.


       A partir daí senti entusiasmo, vontade. Me liguei no computador e em cinco minutos preparei o esquema daquilo que eu queria falar para vocês no dia de hoje.

 

 

Faixa 2 - Aumentar a satisfação em viver: novo paradigma nas psicoterapias

 

 

       Ficou claro para mim uma coisa: que não estou a fim, definitivamente, não estou a fim de transmitir conhecimentos eruditos fechados, dentro de uma ecologia de idéias, que forma a ecologia de idéias dos profissionais dedicados a chamá-la, entre aspas, ou tradicionalmente chamada saúde mental. Nem psiquiatras, nem psicólogos, nem psicanalistas em nenhuma de suas diferentes formas, porque eu gostaria de falar hoje de trinta anos de vida dedicada a esta tarefa de ajudar aos seres humanos. Já não a curá-los de neuroses e nem psicoses nenhuma, e que se entenda muito bem isto que eu vou lhes dizer: eu não quero curar a doentes. Eu não trabalho com doentes. Eu trabalho com seres humanos. Esses seres humanos poderão estar sofrendo. Esse sofrimento terá acolhida? Sim, vai ter acolhida, mas a conversação não vai só girar em torno de: por que estou sofrendo, de por que me aconteceu o que me acontece, nem de meu pai, nem de minha mãe, de minha sexualidade infantil ou do que aconteceu nas diferentes situações traumáticas de suas vidas. Eu não trabalho com a dor. Eu banco a dor se for necessário. Mas meu trabalho não consiste nisso. Meu trabalho, já faz alguns anos, consiste: em aumentar a satisfação de estar vivos dos seres humanos.


        A dor, o sofrimento, a estagnação, a paralisação e a repetição é simplesmente algo do qual vamos ter que transitar, mas nunca para ficar trabalhando ao redor disso. Não quero que me paguem meus honorários como um curador de doenças. Eu quero que as pessoas se me contratam, que me contratem para ajudá-las a viver melhor. E isto é uma coisa que tenho definitivamente claro que surge do interior da vida acadêmica, graduação, pós-graduação em diferentes países como Argentina, Estados Unidos, México...Aqui fundei a pós-graduação na Universidade Santa Úrsula. Tenho toda a minha vida dedicada a este tema. E não só do ponto de vista pessoal, se não também que parece genético porque meu pai era diretor da carreira de psicologia da Universidade Nacional de Buenos Aires. E dessa família saíram três irmãos, e os três irmãos são psicoterapeutas. Parece que os Musso levam este tema no sangue.

 

 

Faixa 3 - Os psicoterapeutas e o fim da neutralidade impossível: por uma nova ética

 

 

       Agora quero então fazer o que? Me expressar. Expressar o que? Muitos, muitos anos de trabalho profissional. Muitos anos e anos de trabalho clínico. Muitos anos e anos de pesquisa em centros universitários e em outras organizações científicas também de diferentes países. Mas não quero falar de teorias. Quero falar daquilo que acontece com um ser humano chamado psicoterapeuta, porque esse é meu ofício. E o que ele quer? Quando está com um paciente ele quer curar neuroses? Ele quer curar psicoses? Se apoiando na psicanálise, ou na Gestalt, ou em qualquer destas teorias que giram em torno de como se constrói a subjetividade humana. Esse ser humano que trabalha, esse chamado psicoterapeuta, esse ofício não se circunscreve jamais a essas teorias. Porque quando esse senhor está trabalhando com este outro senhor, com essa outra senhora, com esse grupo familiar, com essa organização, que dizem: “Estamos precisando de uma força em nossas vidas”, esse terapeuta tem algo dentro de si que transcende toda e qualquer teoria que pode haver aprendido em sua formação como aluno ou em sua formação como professor. Então, com isso quero dizer que não existe a neutralidade. Não só eu. Eu porque lhes falo e quero formar conhecimentos ao torno desse tema. Mas não tem nenhum destes chamados trabalhadores da subjetividade, que trabalham com seres humanos, com o intuito de ajudá-los nas suas vidas, que não tenha algo que como ser humano quer dos outros. Não existe isso. Isso não quer dizer que esse psicoterapeuta tenha poderes mágicos como a gente fala vulgarmente de fazer a cabeça de ninguém. Isso não é verdade. Ou seja, nenhum psicoterapeuta tem esse poder.


       O que se forma é um pacto, uma união para fazer um trabalho onde exista uma cumplicidade e onde devem existir acordos que são acordos que dizem respeito a que é ser sadio, ao que é a chamada doença, para que estamos no mundo, por que, para que, em que consiste a nossa espiritualidade. Acreditamos na existência de algo que transcende o nível do objetivo e o nível do pessoal? Acreditamos que existe algo que chamamos espiritualidade e se já acreditamos que há o que chamamos de espiritualidade, o que quer dizer isso para ti e para mim? Eu acho que quando a gente trabalha, acho não, acredito firmemente depois de muitos anos de experiência, que quando a gente trabalha com outro ser humano, vulgarmente chamado paciente, não é com um paciente que estamos trabalhando é com um pacto no qual deve existir certas identificações, certos critérios compartilhados, certas filosofias compartilhadas, certas formas de ver o mundo compartilhadas, certas formas de ver a espiritualidade, a economia, a tecnologia, os critérios pelos quais interpretamos as crianças, as mulheres, os homens, os velhos. Pelo que queremos fazer com nossa vida, do valor que damos a nossa vida cotidiana, etc, etc, etc. São pactos que devem ser esclarecidos por parte dos terapeutas.


       Há um antigo critério que diz que os terapeutas não devem influir diretamente na vida do paciente. Mas isso não é verdade. Isso é uma profunda mentira. Eu lhe falo isso não como psicoterapeuta, senão como supervisor de psicoterapeutas. E como terapeuta de terapeutas e psicanalista de psicanalistas...Era muito interessante quando eu me encontrava em uma primeira, segunda ou numa terceira sessão com uma pessoa que já tinha feito vários anos de análises, eu sabia direitinho com que psicanalista essa pessoa havia sido analisada. Se a pessoa vinha me falando de papai, de mamãe, das situações infantis, de que porque tal coisa com os irmãos, me falava de sua sexualidade infantil, eu já sabia: se analisou com um freudiano.


       Se a pessoa vinha me falando de que ele era muito voraz, que queria destruir as pessoas, ou que tinha muita inveja, ou que tinha muito ciúme, ou que havia coisas boas...e que havia coisas más...e que o correto era a chamada posição depressiva e ele ficava triste porque tinha que reparar os danos que tinha feito e era claro para mim: tinha se analisado com um psicanalista kleiniano.


      Se começava a ter atos falhos e queria acender o cigarro, caía o cigarro, ou tinha lapsos lingüísticos em vez de dizer pão, falava pau, ou se me falava de seus sonhos e de todas as suas formações do inconsciente, eu tinha a idéia certeira que tinha se analisado com um lacaniano.

 

 

Faixa 4 - O observado depende do observador. Como vemos a vida e o que queremos fazer com nosso trabalho clínico

 

 

       Então o que acontece? Acontece que depois de ver isso e de ver que não existe a neutralidade neste trabalho e que são dois seres humanos que estão juntos para o cumprimento de uma missão x, eu fiquei muito interessado em tentar entender já não só os outros seres humanos, mas a mim mesmo como terapeuta e tentar falar com os outros seres humanos, chamados pacientes, o que simplesmente eu queria da vida. E as coisas com as quais eu concordava da vida deles, e as coisas que eu não concordava. E não tinha temor, porque eu não achava que eles eram uma tábua rasa, puros e inocentes e eu com um poder enorme, que se chegava a dar opinião com respeito à vida, essa opinião deveria ter um valor sagrado. Não. Se eu falava minhas opiniões, eu dava a chance ao outro de rebatê-las e numa relação, antes de qualquer outra coisa, de pessoa para pessoa. Não era de que dando uma opinião sobre um tema da vida eu forjava o entender dessa pessoa de uma forma igual a minha. Isso não existia. Meu poder não era tão grande assim. Isso me deu muito alívio. Me deu muito alívio e neste momento poderia dizer: as sessões do meu trabalho consistem fundamentalmente em conversações entre as pessoas diferenciadas só por seu ofício. Porque eu tenho esse ofício que chamamos de psicoterapeuta e o outro tem esse papel e nesse instante comigo, tem um papel de paciente e vamos fazer girar as coisas em torno de seus interesses. Isso sim. Não em torno dos interesses meus. Embora os interesses meus formem parte, e as maiores decepções que eu tive com meu trabalho, foram quando eu verifiquei que o problema não era em termos científicos, não era o problema em termos de “saúde mental”, meus fracassos eram em não poder convencê-los de algo que eu achava que seria bom. Como por exemplo que viver felizes e que a vida cotidiana desse ser humano é o mais importante que ele tem, mais importante que sua família, mais importante que o dinheiro que ele ganha, mais importante que seus trabalhos. Sua vida cotidiana é o mais importante que ele tem. Assim acreditava eu e não consegui convencê-los, e aí fracassava como terapeuta, porque não conseguia convencê-los de que esse assunto da vida cotidiana é um assunto muito, muito importante de ter em conta.


       A partir daquilo, então o que é que a gente vai fazer? Eu vou me oferecer ao mercado, vou ganhar o meu dinheiro como psicoterapeuta curador de doenças? Não acredito. Eu vou deixar muito bem explícito o que eu quero para mim, para minha vida e para a vida dos outros. Porque não é possível que eu tenha a capacidade dessa neutralidade, essa assepsia. Não é com respeito a não me meter na vida dos outros. E que em algum momento de minha formação, dentro da inocente ciência, que em algum momento passava por nossas cabeças que era uma ciência da neutralidade, que era uma ciência da objetividade, que era uma ciência que nos falava dos critérios de verdade. E o mais ingênuo de tudo, que era uma ciência que nos falava que 2+2 nasceram 4. E 2+2 não nasceram 4. Essa foi uma organização, um sistema que nós seres humanos criamos, inventamos. Para quê? Para podermos entender melhor, para poder trocar, para poder ter benefícios nessas trocas. 2+2 não nasceram 4. 2+2 são 4 porque nós seres humanos inventamos isso ganando concenso. Então não existe uma verdade. E passamos da idéia de um mundo que existe e é objetivo independente de nós a um mundo que é construído, um mundo que é inventado por cada um de nós. E a única coisa que precisamos é consenso. Com isto quero dizer que uma grande parte de nós fale a mesma linguagem, como por exemplo, que a cor desta camisa é azul e desta forma todos nós entendemos. Por que? Por consenso. Não é porque é azul, porque para um africano pode ser “blitsch colots” ou para um inglês pode ser blue. E com isso cuidado, porque as palavras não só designam objetos, nas palavras estão embutidas algo muito importante que são as emoções. E nós nos movemos, não por critérios racionais, senão a gente se movimenta por critérios emocionais.

 

 

Faixa 5 - Meditação: música ladina e a sinergia grupal

 

 

       Eu vou conseguir falar depois, mas antes de mais nada, eu propus a mim mesmo me comunicar não só por intermédio de minhas palavras, senão por intermédio de músicas. E eu pediria que escutássemos duas músicas. São duas músicas que são cantadas em uma língua, um idioma que é o ladino. O ladino é uma coisa muito bonita. Por que é muito bonita? Porque nos remete a uma época, que é a época chamada de Idade de Ouro, onde, na Península Ibérica, existiam cristãos, judeus e muçulmanos juntos, tentando produzir um mundo mais bonito, do ponto de vista das ciências, do ponto de vista das artes e tudo o que significava cultura.


       Eu pediria que escutássemos essas duas músicas, em um pequeno exercício antes de continuar a dissertação sobre os outros temas. Porque isso forma parte também da maneira que eu gostaria de me comunicar com vocês.

 

        Música Ladina


Eu pediria a vocês para fazer primeiro um exercício. Em que consiste? Consiste em fechar os olhos e respirar.


Primeiro colocar-se em uma posição o mais cômoda possível. É uma pequena meditação, na realidade.


Então coloquemo-nos numa forma mais cômoda possível e respiremos...


E por favor, fechem os olhos e vamos nos adentrar em nossa respiração.


Vamos ver como respiramos...


Trocando ar novo por ar velho...


Ar novo, cor celeste, azul claro...Ar velho, cor cinza.


Todos nós estivemos trabalhando, estivemos pensando, nos esforçando no dia de hoje e este é um momento de tranqüilidade, é um momento de paz, é um momento de união e a idéia é que cada um de nós possa soltar todas essas energias gastas...


Todo esse cansaço do dia de hoje... por intermédio de nossa respiração...


Respirando, só respirando...


Trocando ar novo, por ar velho. Trocando ar azul claro, por ar cinza, ar preto, ar de cansaço, ar de preocupações, muitas vezes...


E vamos soltá-las, todas elas. Respirando...


E nessa respiração vamos deixar incluir uma música, um som de uma época bonita, de uma época de ouro, de uma época onde as diferentes religiões estão juntas, uma época onde se aceitavam as diferenças, uma época onde não tinham necessidade de briga...


Nesse idioma que é o ladino, pela Península Ibérica, do século XIII ao século XV, porque essa época, embora época atual, época de guerras, está presente no inconsciente coletivo da humanidade como um período onde tivemos sinergias, estivemos juntos.
E se estamos com vontade de bocejar, bocejemos...

 
Descansemos e escutemos essa música...

 

Música Ladina (ABRE) Interprete: Fortuna, Titulo : Scalerica de oro

 

Sinergia, união...


Época de ouro...


Nós também somos aquela época. Nós também temos na memória, de nossa espécie, seres humanos dessa época...


Paz, união, alegria...


Vontade de viver e de compartilhar...


Época de uniões, época de sinergias, que está presente na memória de nossa humanidade...


Recuperemo-la...

 
Bom, vamos lentamente abrir os olhos e vamos olhar-nos.
Se necessitamos ficar em pé vamos ficar em pé, mas é importante saber que estamos em grupo. É importante saber.

 
Por favor, poderiam se olhar, uns aos outros. Vamos ver com quem estamos, quem somos. Estamos juntos. Formamos uma rede. Vamos ver como é nossa rede.
Obrigado.

 

Faixa 6 - A cura em rede e a construção individual e sistêmica de um mundo mais bonito

 

 

       Bom, então vamos nos afunilar em nossos temas. Eu quero trabalhar três temas fundamentais: um é o tema da cura, outro é o tema da criatividade e da intuição; e outro é o tema da cultura. Agora, não entendamos a cultura como acúmulo de conhecimentos, por favor, de jeito nenhum. Depois eu vou falar disso: do que entendemos por cultura.

 
       A cura, que é a motivação ou interesse pelo qual a grande maioria de nós, e eu estou falando dos chamados terapeutas, e cuidado que por terapeuta eu gostaria de falar num sentido amplo. Porque está bem, eu sou psicólogo, tal universidade, tal outra, toda essa formação profissional, esse conhecimento, da chamada: “ciência dos homens”. Mas eu diria que eu gostaria muito e meu sonho é poder formar uma rede de cura, uma rede de seres humanos geradores de cura para o qual pouco importa se são médicos, se são psiquiatras ou são psicólogos, ou são psicanalistas, ou gestaltistas, ou construtivistas ,amas do lar ou cognitivistas, não importa nada. O que me importa é algo que sai do âmago desse ser humano, que transpassa sua interioridade e diz-se: vamos tentar fazer um mundo mais bonito? E vamos tentar ajudar para fazer um mundo mais bonito? Porque as coisas não estão muito bem. Meus queridos amigos: as coisas não estão muito bem. Mas eu acho que talvez nós consigamos criar uma rede e nós seres humanos não somos sozinhos. Nós seres humanos vivemos em rede. Essa rede em algum momento são as nossas famílias, em outro momento serão os locais de trabalho, em outro momento serão os amigos. Não existe ser humano sozinho. O ser humano não é um ser que pode definir-se dele para si mesmo. Um ser humano vive em sistemas. Sistemas familiares, sistemas de trabalho, sistemas culturais, sistemas econômicos, mas nós sempre devemos enxergar-nos em rede.

 

 

Faixa 7 - Além das causas: as ecologias de idéias, a complexidade do vivo e o construtivismo criativo na produção dos mundos.

 

 

       Então, o que acontece? Acontece que, eu posso falar da parte da qual eu sou responsável, no ofício de curar. Eu sou psicólogo. Trabalho com esses critérios. Aprendi isso desde criança, desde pequeno. Já antes da universidade, na minha família. E me interessava muito sobre o tema da subjetividade, e fundamentalmente um tema que era: Por que as coisas acontecem como acontecem nas pessoas? Tal pessoa realiza tal comportamento ou tal escolha na sua vida. A ciência falava: mas senhores, isso tem uma causa. A gente usava muito a palavra determinação. Os seres humanos estão determinados. E o mais interessante é que a psicanálise, durante muitos anos fui psicanalista, e eu sou psicanalista, porque está na minha história e seria impossível negá-lo. É como dizer, eu não sou argentino. Impossível. Me sai no sotaque. Da mesma forma, ser psicanalista, eu sempre, toda a minha vida vou ser psicanalista. Vai ser meu sotaque da minha forma de trabalhar. É inegável minha história como psicanalista. Mas essa maldita psicanálise nos falava que o importante era entender o determinismo: por que as coisas acontecem como acontecem? A psicanálise tinha toda um teoria de como se fundava, ou aliás, tem uma teoria de como se funda a subjetividade. Como o ser humano passa da condição de ser um bicho a condição de ser um ser humano. Tudo isso, o psicanalista entendia que girava em torno dos destinos que a criança dava a sua sexualidade infantil. Fundamentalmente nas relações com o pai e fundamentalmente nas relações com a mãe. Isto de carne e osso, Lacan vem ajudar mais um pouco quando diz: o problema não é o pênis. O problema é o falo. O falo que quer dizer? O falo é o que representa esse pênis, marca uma ausência inalcançável de expectativa de totalidade. Não é esse pedaço de carne que tem entre as pernas, aqueles que nós chamamos homens.  Não é o pênis, falo é o problema. O falo para nossa cultura patriarcal quer dizer poder. Então a briga era entre funções: função materna, função paterna, função filho. Então todos devíamos entender porque as coisas acontecem como acontecem a partir dessa vida da sexualidade primária, em torno daquelas figuras significativas, fundamentalmente que habitavam no nosso lar e eram depositárias de nossos desejos.


       Também Freud falava uma coisa, existe um trabalho dele muito interessante que tem o nome de mal estar na cultura. Freud falava: a angústia é algo do qual a gente não vai conseguir se salvar. O sofrimento é inerente ao ser humano. Ou seja, por que? Porque nós e fundamentalmente a satisfação de nossas pulsões sexuais infantis, a cultura, não nos vai deixar. Se nós desejamos a mamãe e gostaríamos de tê-la perto, nos apropriar dela até no ponto de vista genital, a cultura vai nos dizer não. Isso se chama incesto. Ai, que mal estar! vai sentir a criança. E Freud vai dizer em seu livro, o mal estar na cultura, desse mal estar vamos ter que formar parte e ninguém vai nos salvar.


       Freud fala isso desde uma cultura vitoriana, onde os seres humanos se excitavam sexualmente ao ver o tornozelo de sua mãe ou o tornozelo de uma mulher. E neste momento, acontece que nossas crianças vêem relações sexuais pela televisão, a qualquer hora. Existem canais televisivos pornôs, clubes de swing, onde os pais podem ir para se divertir e isto está sendo cada vez menos oculto. Algo que faz parte de nossa realidade contemporânea. Se gostamos ou não gostamos, não importa. Isso se nos manifesta como alternativas no nosso dia a dia. Portanto, a forma de entender a sexualidade ou a importância da sexualidade na época que Freud brilhantemente produz sua obra e que até os dias de hoje nos traz profundos benefícios, não é a mesma cultura que é agora. Portanto os conceitos, as idéias que fazem parte daquele grupo de idéias e de conceitos, que tem o nome de psicanálise, que continua sendo importante em algumas coisas, resgatemo-los como algo que faça parte de nossa história. Mas não como algo que podemos aplicá-lo pontualmente a realidade atual. Agora o problema fundamental não é tanto a psicanálise, senão aquela idéia de que o homem é como é e que o importante é descobrir como somos. Primeiro porque ninguém é como é de uma forma definitiva. A partir das concepções sistêmicas, a partir das concepções construtivistas e cognitivistas não racionalistas, que insisto, entendem que o mundo não é mais 2+2 são 4, senão que o mundo é para criá-lo, para inventá-lo e se for possível, dia a dia, vão nos dizer que o ser humano é uma matéria em expansão até o final de seus dias. E enquanto estamos vivos, essa vida, desde as bactérias até os seres humanos estarão em constante mudança, porque tudo o que está vivo, vive num mundo pertencente à chamada ciência da complexidade. E aqui temos uma pessoa maravilhosa que tem o nome de Ilya Prigogine que vem estudar os seres humanos, a criatividade, a imprevisibilidade, por intermédio da termodinâmica. E através da termodinâmica podemos pensar os seres humanos. Alguns nos dizem: Como? Da termodinâmica aos seres humanos? Sim, claro. Da termodinâmica aos seres humanos. Como foi da matemática à bomba de Hiroshima. Porque Einstein possibilitou essa passagem. Das matemáticas, das teorias dos sistemas matemáticos a explodir uma parte grande do Japão. E neste momento temos um gênio que se chama Ilya Prigogine, acompanhado de uma forma de pensar muito interessante que aporta a escola chilena, a escola de Humberto Maturana, que vai nos falar da vida, como uma vida onde o ser humano não vê realidades, e na sua forma de perceber as coisas constrói a realidade para si mesmo e em seu viver. É, então, onde devemos trabalhar, não é por que constrói a realidade que constrói, senão ajudá-lo a inventar outras realidades, que sejam mais harmoniosas e com as quais possa conviver de uma maneira mais satisfatória.


       Então, o que nos acontece? Àqueles que nos interessava a ciência, pensávamos que tínhamos que estudar as causalidades, porque as coisas aconteciam como aconteciam. E, naquela época, naquela ecologia de idéias. Eu estou falando dos anos 60 aos anos 70, movimento pela liberdade, na França, no ano 68, que depois repercute e desenvolve aquilo que chamamos de hypismo e aquilo que depois se expande pela América Latina em forma de lutas revolucionárias pela liberdade.


      Nós tínhamos certos critérios e dentro da ecologia de minhas idéias, pensem numa coisa: eu morava na Argentina, estudava na Faculdade de Filosofia e Letras de Buenos Aires. Quem não era marxista e psicanalista era um idiota. As ecologias das idéias se apropriavam de nossa capacidade de pensar e tínhamos que pensar segundo as alternativas que nos dava esse momento de nossa história. Então, tínhamos chance de pensar outra coisa que não fosse essa? Não. Porque? Porque o Marxismo falava: bom, os movimentos da história se dão por intermédio da luta de classes. Então, se os movimentos da história se dão por intermédio da luta de classes e nós não gostamos desse momento histórico, então, vamos fazer a revolução. Vamos fazer uma luta de classes mesmo. E o que aconteceu? Nos deram bala, bala, bala, torturas, seqüestros, assassinatos, e acabaram com essa tentativa de modificação. Nos falavam: há um sistema, que se chama sistema do inconsciente, que determina o comportamento dos seres humanos. Então vamos estudar Freud, vamos estudar Lacan, e estávamos ligados ao tema. Ao mesmo tema que eu já falei 3 ou 4 vezes: que 2+2 nasceram 4. Que o mundo é. O mundo é algo sim, mas para ser construído todos os dias e para isso devemos desenvolver nossa capacidade de criar, de intuir e de produzir em forma de ato criativo. Não só de pensamentos, senão de atos criativos. Então insisto, estávamos muito preocupados com “por que as coisas acontecem como acontecem”. O tempo passa, e não impunemente. E aparecem outras idéias, e aparecem outras ecologias de idéias. Tanto para pensar as classes sociais, o lugar das empresas, como os seres humanos mudam, como os seres humanos se agrupam, como os seres humanos se curam, chamando cura entre aspas, que na realidade é como progridem, como criam.

 

 

Faixa 8 - A cura entendida como desenvolvimento das potências e virtudes dos seres humanos

 

 

       Há uma pessoa que é considerada pelos psicólogos tradicionais – Conselho Regional de Psicologia – marginal, como se diz? Marginal não, alternativo. É Edward Bach, o criador das chamadas terapias florais. E acontece que Edward Bach nos diz certa coisa que para nós é muito importante, como por exemplo: para curar as chamadas doenças, para curar as chamadas enfermidades, não se deve atacar a enfermidade. O que tem que ser feito é desenvolver as virtudes opostas. Este cara que nos fala disto é um alternativo, um inglês, médico homeopata, fora da ciência convencional. Este é um critério epistemológico. Validador de ciência, validador de todo tipo de operação no campo da clínica. A enfermidade não se cura atacando-a. Então vamos ser alternativos, sem dúvida nenhuma. Que as sociedades de psicólogos briguem conosco, que digam que somos marginais, que digam o que eles quizerem. Mas nós vamos tentar ajudar as pessoas. Sem dúvida. Esse é nosso compromisso.


    Agora, deixamos o tema do determinismo e da causalidade e passamos ao tema do desenvolvimento. Desenvolvimento do que? Das potências dos seres humanos, da capacidade de perceber que estamos vivos, da criatividade e da intuição, ou seja, daquilo que nos permita movimentar-nos mais eficazmente. Isso, vamos trabalhar com o desenvolvimento. Não importa tanto assim as origens, as causas. Em algum momento até que é útil aventurarnos em esto tendo em conta que entramos em um romance ou narrativa, mas não importa tanto assim saber por que acontecem as coisas como nos acontecem. O que mais importa é criar instrumentos nos seres humanos para produzir para si mesmos e para os que o rodeiam, um mundo mais bonito. É isso o que vamos querer.


      A cura fica definida então, não por um critério científico-psicopatológico que gira em torno de conceitualizações com respeito ao que é a doença. O critério de nosso trabalho vai ser um critério pós-moderno, vai dizer: nós queremos ajudar e colaborar para que as pessoas estejam mais contentes e mais satisfeitas com seu ato de viver. Esse é o objetivo estratégico. Toda nossa capacidade, todo nosso esforço, todo nosso conhecimento adquirido pela ciência, pela clínica, pela intuição, pela criatividade, pela termodinâmica, pela biologia como no caso de Humberto Maturana, vai estar dirigido a esta finalidade.

 

 

Faixa 9 - O imprevisível na vida e a criatividade versus os modelos da cultura das máquinas

 

 

       Eu falei de criatividade e falei de intuição.

 
      Nós fundamos uma ONG. Essa ONG tem o nome de Centro de Desenvolvimento da Intuição e Criatividade. Por que? Porque acontece que nós vivemos numa cultura que chamamos de cultura industrial. A cultura industrial se apaixonou pelas máquinas. Achavam perfeitas. As máquinas funcionam com uma perfeição absoluta. As máquinas são previsíveis. Uma máquina, segundo os manuais dos seus fabricantes, produz tantos botões em tanto tempo ou tantos parafusos em tanto outro tempo. Então são previsíveis. Não vão nos trazer problemas. Vamos poder organizar nossa produção em série de uma forma perfeitamente planejada e tudo vai dar certo segundo o esperado. Mas acontece que as máquinas e a cultura das máquinas quizeram se deslocar para os seres humanos tentando vê-los como máquinas. Em tudo. Por isso a criatividade e a intuição eram dois temas que não podiam estar presentes na vida dos seres humanos. Tinha que ser abafada porque a criatividade é uma coisa que produz alternativas que não foram previstas. Produzem imprevisibilidades. E não nos dá certezas. E essa falta de certeza nos enche de preocupação. Então nós temos que, em nossos trabalhos, gerar condições para que as pessoas não sejam imprevisíveis. Nós, seres humanos, estávamos apaixonados pelas máquinas.


      O tema do tempo é uma loucura. Está bom, temos a web. Que coisa fantástica. Que coisa importante. Na tecnologia temos um mundo globalizado! Que interessante! Podemos nos deslocar de um lugar a outro no espaço, em pouco tempo. Antes demorávamos uma vida para chegar ao Japão. Se chegávamos. Agora temos um avião que nos leva. Queremos nos comunicar com um japonês, vamos dormir mais tarde, tudo bem, mas teclamos no ICQ e conversamos com esse senhor. Mas esse é o tempo das máquinas e o tempo das máquinas não é o tempo dos seres humanos. O tempo dos seres humanos é outro. Os homens inventaram as máquinas, mas não podemos ver as máquinas como ideal de funcionamento. A máquina prevê, a máquina dá certezas, mas a máquina não cria, não imagina, não produz modificações para o mal, nem tampouco para o bem. Portanto, uma cultura que idealizou a máquina como modelo de funcionamento do humano está destinada ao fracasso. A partir daqui, intuição e criatividade eram duas funções do humano, que estavam sendo aniquiladas pela cultura das máquinas e fundamentalmente aniquiladas na capacidade de perceber que somos criativos e que a criatividade é algo que não é uma qualidade só de artistas ou de cientistas. Somos criativos para podermos viver em um mundo que está sempre em constante movimentação. E se não criamos alternativas de acoplar-nos produtivamente com essas movimentações, morremos.

 

 

Faixa 10 - As empresas como produtoras da subjetividade dos seres humanos que nelas trabalham

 

 

      A criatividade e o ser criativo se vêem presentes na vida dos seres humanos não como um benefício extraordinário. Acontece que a criatividade é como respirar. Se não somos criativos, insisto, morremos.


      Empresas algumas vezes me pedem que os ajude a desenvolver programas de desenvolvimento da criatividade e da intuição para seus funcionários. Eu adoraria fazer isso porque as empresas cumprem uma função muito importante na produção de subjetividade humana no sistema atual. As empresas são como as famílias na produção da subjetividade e o ser humano é uma matéria em expansão até o final de seus dias. Um ser humano que trabalha numa empresa, que utiliza a maior parte de seu tempo no interior dessa empresa, que trabalha para essa empresa, para os benefícios dessa empresa, é um ser humano que está gerando produtos para essa organização e está gerando psiquismo também. E, portanto, se em uma cultura se expressa autoritarismo, opressão, falta de respeito, falta de consideração pelo ser humano, esse ser humano leva isso dentro de si e o leva para o interior de sua família. Não pode ser autoritário na empresa, desrespeitoso, e ser condescendente, escutador em sua família, com seu filho, com sua mulher. Isso não existe. Não tem chance disso. Então, o problema é que as empresas formam subjetividade nos seres humanos e nesse sentido me importa muito, ou seja, eu acho que poder trabalhar com as empresas é um privilégio muito grande. Mas o problema é que algumas empresas têm certos paradigmas que...Embora isso esteja mudando a passo bastante acelerado. E toda minha esperança e meu sonho é que isso mude mais ainda.


      Novamente o tema do tempo. Uma empresa muito conhecida, uma multinacional, que por discrição eu não posso dizer o nome dela. Há algum tempo atrás, eu estava dando uma palestra na Associação Brasileira de Recursos Humanos, onde se juntam as pessoas que trabalham nessa área, e uma dessas empresas me fala: “em quanto tempo, Dr. Edgardo, você consegue desenvolver a criatividade de nossos funcionários?” Eu fiquei apavorado. Quanto tempo? Eu falei o que sentia para essa moça. Toda a vida. E ela falou: “toda a vida? O que é? Você está me gozando?” E eu falei: Não, não estou gozando. Você me perguntou quanto tempo e eu tenho que lhe responder o que eu realmente penso: toda a vida. Não sei, não apareceu mais. Me mandou um e-mail e uma oportunidade para ver se eu dava uma palestra em São Paulo, e essas coisas. Mas eu não consegui me entender. E adoraria poder me entender com eles. Porque insisto: a missão social de uma empresa e o que ela faz fundando subjetividade nos seres humanos é enorme. É muito, muito alta.


     Então, o que acontece? Nós temos um compromisso com a criatividade. E nós temos um compromisso com a intuição. Por isso fundamos essa ONG. E foi considerada ONG por que? Porque falávamos assim, eles não podiam não nos considerar ONG, porque falávamos: queremos preservar a intuição e a criatividade que são duas qualidades dos seres humanos ameaçadas de extinção pelos paradigmas da cultura do industrialismo. Ninguém conseguiu falar que não. Nos disseram: bom, têm o direito de ser uma ONG. Ótimo, vamos fazer uma ONG. Vamos trabalhar com isso. E vamos participar do movimento verde, vamos participar da carta da terra, e vamos fazer uma coisa bonita e outra. E aí demos a cabeça contra a parede porque esse movimento verde não existia, a carta da terra era uma carta que não passava dos papéis, e eu tinha que trabalhar como um maluco, sem poder dormir, para preparar um documento que depois não ia ser aproveitado. Foi uma frustração muito grande, porque senti: não. Vamos voltar tudo para trás. Vamos ficar quietos, vamos trabalhar só com os pacientes, com as pessoas que estão por perto, no consultório. Então, fundamos nossa ONG, fizemos esses esforços, tiramos alguns resultados. E neste momento se transformou em outra coisa. Em que coisa? Qual é nosso próximo sonho? Nosso próximo sonho consiste em formar um grupo que chamamos Grupo dos tres C. Um grupo de cura, criatividade e cultura, para ver se podemos formar uma rede. Não uma rede a nível mundial, ou a nível de Brasil, formar uma rede para nos juntar, onde vocês se conheçam, passem informações uns para os outros. E se algum dia tiver vontade de sair para jantar com uma pessoa diferente, tenha um número para teclar e dizer: Vamos ver tal filme? Vamos ler tal livro? Ou vamos nos encontrar para fazer amor?. O que seja. Mas ter a chance de ter um grupo que compartilha certas idéias e que por intermédio dessas idéias ter algum núcleo que nos aglutine, algum núcleo em que possamos dizer: somos companheiros. Não sei se para vocês, mas para mim essa palavra tem um significado muito profundo. Não sei se para todo mundo tem. Somos companheiros. Não para mudar o mundo, senão para conversar, para estudar, para ler, para comer, para passear. Então por isso é que estou organizando o novo workshop. O primeiro saiu muito bonito e as coisas estão dando certo.

 

 

Faixa 11 - O poder curador da ecologia profunda: meio ambiente natural e humano

 

 

      Agora dia 26 e dia 27 temos nosso segundo encontro. É num lugar muito fantástico. George é o coordenador de uma Organização Não Governamental, que tem o nome de Aldeias Infantis. E ele generosamente está nos emprestando um lugar que pelo ponto de vista ecológico é maravilhoso, porque tem plantas, que são jacas. As jacas são plantas sagradas, porque produzem alimentos, porque produzem sombra e produzem umidade. Então, tem um bosque de jacas e esse bosque para fazer trabalho de sensibilização ecológica é fantástico. É um lugar profundamente curador. E não só pela topografia do lugar, pelas plantas, senão também pelas pessoas, pelos seres humanos que estão trabalhando nesse lugar em um projeto que eu acho maravilhoso que é ajudar crianças que não têm lar a ter uma vida, a melhor possível dentro dessas situações desastrosas em que a gente vive. É uma organização que se funda na Europa, depois da Segunda Guerra Mundial, quando tinham muitas crianças que estavam sem pais porque que tinham morrido, e tinham morrido de uma forma bruta, de uma forma burra que foi em uma forma de guerra. E tinham que cuidar delas e tinham que dar a elas um destino. Então foram formadas aldeias e nessas aldeias existem famílias compostas de crianças e de uma mãe, que toma conta delas, tentando, no possível, reproduzir as condições maternas que existem em nossa sociedade contemporânea. Então esse é o lugar onde nos encontraremos e agradeço e vou agradecer toda minha vida, a essa organização e ao George em particular, por ter nos possibilitado trabalhar nesse lugar que é profundamente ecológico, e espiritual no sentido nosso. Temos que falar de espiritualidade. O que chamamos espiritualidade. Então nosso sonho é formar esse grupo. E o instrumento para formar esse grupo é o que chamamos workshop, que são dois dias de trabalho intenso, e onde se trabalham estes 3 temas: cura, criatividade e cultura.

 


Faixa 12 - O poder das culturas e seus diferentes valores:

– A unidade de todas as coisas
– Espiritualidade e Gaia
– O ecofeminismo

 

 

      Está faltando falar do tema da cultura. Falei alguma coisa quando estava me referindo a cultura das máquinas, a cultura do industrialismo. Mas acontece que temos outra, que está em pedaços aparecendo dentro do que alguns chamam pós-moderno. Não sei se gosto tanto deste termo, mas vamos adiante com ele. Pós-moderno sim. E em que consiste essa cultura dentro do que nos interessa? Essa cultura, primeiro e antes de qualquer outra coisa temos que entender que quando falo de cultura, não estou falando de acúmulo de conhecimentos e de erudição nenhuma. Os computadores são muito mais aptos para isso que nossas mentes humanas. Quando falo de cultura, estou falando de cultura, no sentido de Humberto Maturana e Francisco Varela, como uma rede fechada de conversações de um grupo particular que conversa num linguajar e se emociona a partir de determinados temas. Por exemplo, nossa cultura patriarcal industrial nos emociona a partir das posses, ser proprietário de coisas. Por exemplo: os carros. Estamos profundamente acreditando que isso é uma coisa muito importante e nos emociona profundamente quando temos um carro muito bonito, muito legal, muito forte. Até tal ponto que eu vou contar uma pequena história. Fui convidado pela EMBRAPA a uma reunião sobre meio ambiente e me encontro com um jovem muito inteligente, boa pessoa. Sou psicoterapeuta, tenho trinta anos de trabalho nisto, eu sei enxergar mais ou menos as pessoas. Esse jovem com poder na cidade de São Paulo era judeu, inteligente, bem intencionado, estudioso profundamente identificado com o que ele estava fazendo. E falava para mim e para outros que estavam na reunião, dizia: os seres humanos não se entendem, a gente verificou, por critérios biológicos, que a poluição da cidade de São Paulo desencadeava doenças em crianças e em velhos. Doenças pulmonares, nos que já tinham antecedentes. Mas poluição desencadeava essas doenças e já tínhamos 7 mortos entre crianças e pessoas velhas. Então, tomei uma decisão. Primeiro, era que o que mais poluía o ar eram os carros. Então, de tal a tal dia vai funcionar tal placa de carro. De tal dia a outro dia, vai funcionar tal outra placa de carro. Fazendo aquilo que chamamos de rodízio. Ele falava para nós: as pessoas não me entendiam, as pessoas ligavam para minha casa, dizendo que se eu não colocasse o carro delas na rua com liberdade, elas iam mandar uma bomba para minha casa, iam seqüestrar minha mulher. Coisas incríveis. O mundo está louco, falava ele. E eu pensava: não, nada disso. O mundo é como ele se nos apresenta nesse momento. O que acontece é que voces não estám enxergando como introduzir o programa de trabalho. Pensemos uma coisa: uma montadora, que colocou milhões e milhões de dólares em cima da mesa, para juntar carro com símbolo de potência, de sexualidade, de virilidade, de status, de poder. Quando tiramos o carro desse ser humano, estámos lhe tirando sua virilidade, seu poder, e o ingenuo desavisado vai querer te matar, logicamente. Então com isso quero dizer, que nós não temos como não viver nessa cultura, em uma sociedade que possui essa determinada cultura. Agora, nós temos a nossa. E essa é a que nós queremos transmitir. Em que consiste? Antes de mais nada, consiste no conceito de ecologia profunda, valor fundamental. O que é que falamos com ecologia profunda? Falamos que entre o ser humano e o meio ambiente natural existe a chamada “lei da unidade entre todas as coisas”, pela qual tudo está relacionado. E que quando quebramos uma árvore, destruímos o ar, destruímos um rio, ou nossos mares, estamos destruindo a nós mesmos. Por que? Pela unidade científica e espiritual da unidade de todas as coisas. Essa afirmação vai desde a mecanica quântica, que nos diz e sustenta desde os postulados da ciência até aqueles que querem parar com os desastres ecológicos e o budismo como filosofia e religião. O conceito de ecologia profunda para nós é um valor, um conceito cultural muito importante. Outro conceito-valor muito importante para nós é a chamada espiritualidade. É necessário resgatar a espiritualidade dos seres humanos. Quando falamos de espiritualidade, não estamos falando de religiões. Do ponto de vista religioso somos profundamente ecumênicos. As religiões surgem no interior de uma cultura, no interior da tradição de um povo e se expressam como esse povo se expressa, e cada povo poderá ter sua tradição religiosa. O que nos interessa é juntar daquelas chamadas religiões o que nos une na construção de um mundo mais harmonioso, mais bonito, mais gostoso de viver nele.


      Nós falamos de espiritualidade, respeitamos as chamadas religiões, mas nós temos a nossa. Nós temos a nossa deusa, que cuidaremos constantemente e todos os dias e chamamos Gaia. Ela é tudo aquilo que nos rodeia e Gaia também somos nós. Porque a espiritualidade da qual estamos falando não é a de um Deus administrador que está lá por cima, que rege o bem, o mal, o que está certo, o que está errado. Tal espiritualidade da qual nós estamos falando é de uma divindade que está presente em tudo o que está vivo. Desde as bactérias até os seres humanos. Quando falo, seres humanos, falo de nós. E essa é nossa deusa, nossa mãe, nosso planeta, a terra, a qual vamos cuidar e da qual vamos resgatar as formas circulares, o brando, o que contém, a criatividade, a intuição e as formas não violentas de produção e política.

 


Faixa 13 - Administração dos conflitos: as emoções pela apropriação da cultura patriarcal-pastoril e a rede fraterna.

 

 

Isso é o que eu queria falar, e gostaria que vocês participassem também por intermédio de perguntas ou observações. O que cada um quiser.


(SILÊNCIO PROLONGADO NA PLATÉIA)


A conversação está aberta...


(RISOS)


Difícil falar?


(PEQUENO SILÊNCIO)

 

      Pergunta e intervenção da platéia. Boa noite. Não sei se prefere que fale em português ou casteliano. Português? Entende bem o português? Meu nome é Tânia, eu trabalho com pacificação de conflitos, quer dizer, prevenção e solução de conflitos com base em muitos dos pilares que foram levantados aqui, que é exatamente criatividade, formas alternativas, não vulgarizadas, claro, de trazer, colocar os interesses das partes na mesa. Porque muitas vezes as pessoas vêm com as suas posições e não conseguem dizer o que há por trás. Então, a partir do momento que se coloca na mesa os interesses, você começa a poder, através daquilo revelado, trabalhar com opções. E aí a criatividade é muito útil para se resolver os conflitos ou para se prevenir os conflitos. Então acho muito importante poder estar vindo aqui assistir isso hoje e ver que existem muitas pessoas interessadas não só no desenvolvimento da intuição, da criatividade, como na melhoria do mundo. E como sugestão, e por isso peguei o microfone, eu estou conectada com uma rede também. Porque, lógico, aí a gente estuda toda a parte. Eu sou advogada, não tenho nada a ver com o meio psi, mas eu tenho sócias psicanalistas, psicólogas, enfim, dentro dessa área de mediação e arbitragem, que é de prevenção e solução de conflitos, e daí a gente começa a ver toda a forma sistêmica e toda essa cultura de redes também. E uma das redes que eu faço parte, é a da Teia da Paz que, enfim, via internet, a gente consegue se conectar com o mundo todo e colocando formas e possibilidades de vida melhor para nós, para os seres humanos, para os nossos descendentes e para a terra.

 
      Bom, a companheira falou num tema fundamental, que tem a ver com a resolução de conflitos. A existência do conflito é inerente à vida. Existem conflitos, insisto, desde as bactérias até os seres humanos, passando por todas as formas da natureza se expressar. O problema é o que fazemos com esses conflitos. Havia uma época, Maturana fala: seis mil anos antes de Cristo, que vivíamos numa sociedade chamada matrística. E nesta sociedade existia total comunhão entre todos os seres humanos e nossa mãe natureza. Nós comíamos, nós nos alimentávamos, nós não tínhamos inimigos e os conflitos eram resolvidos de uma forma onde eram entendidos como divergência de opiniões. Ou seja, por exemplo, vamos afastar os lobos de nosso gado, porque os lobos podem chegar a comer todas as nossas comidas! Aí, inventamos os pastores. Os pastores foram os primeiros que disseram: todo este alimento será nosso! E os lobos são nossos inimigos, porque vivem comendo nossos alimentos, portanto, os mataremos!. A partir daí começa o tema da sociedade pastoril-patriarcal, o tema de emocionar-se pelas apropriações. Quando nos emocionamos pela apropriação, estabelecemos então os inimigos, que em sua primeira época existiam em função dos que queriam tirar nossos alimentos e que neste momento pode ser em função de outras posses, como por exemplo, nossa família, nosso dinheiro no banco, nossos carros e aí nasce o medo e a desconfiança: do pivete que está limpando nosso carro, ou aquele que está trabalhando em nossa casa ajudando nos afazeres domésticos, etc, etc. Então, os conflitos são inerentes à vida.


      Observem que nós necessitamos agora de companheiros, de ONGs que possam nos tirar de nossa burrice pastoril, patriarcal. E de dirimir e resolver esses conflitos em forma de divergências, não em forma de oposição e de morte daquele que não opina igual a nós, como fazemos com os diferentes lobos que se nos aparecem ao viver. Primeiro, não temos como não ter conflitos. Nem em nosso interior, nem para com os outros seres humanos, nem para com nada, até com as plantas. Por exemplo, eu vivo no meio do mato, estou rodeado dessas plantas – mangueiras. As mangueiras avançam sobre meus telhados e na época que elas criam frutos, minha casa treme e meus pacientes dizem: o que aconteceu? São as mangas que caem, respondo. Eu poderia contratar uma pessoa com uma motoserra e cortar tudo isso. Mas eu não quero. Eu quero conviver com elas. Eu prefiro trocar umas cem telhas do telhado do meu consultório a cortar essas mangueiras. É uma opção pessoal. Com isto quero te dizer que sempre há conflito. O problema é passar do indivíduo à rede. Por exemplo, sua colocação me deu a chance de me colocar, que por sua vez dará a chance de outro se colocar, de outro pensar e de outro sentir tal ou qual outra coisa. Por isso te diria: conservemos a percepção do indivíduo. É útil. Mas ampliemos a percepção da rede, a percepção dos vínculos, da companhia, dos companheiros, e você vai ver como o mundo se torna mais carinhoso e menos solitário.

 

 

Faixa 14 - A importância de aproveitar o imprevisível para produzir mudanças:
uma experiência pessoal

 

 

      Pergunta e intervenção da platéia. Fiquei atento a sua dissertação e acontece o seguinte: eu gostaria de saber a sua conclusão, depois de seus trinta anos de atividade científica, de pesquisa nessa área, como o senhor responderia hoje àquela pergunta: de acontece e como acontece?


       Bom, acontece e como acontece? Eu gostei. Gostei mais de porque acontece, de como acontece?. E eu acho que não devemos generalizar na resposta. Vou te dar um exemplo: eu tinha que convidar as pessoas para esta palestra. Como faço para convidar? Eu tenho uma lista de e-mails, onde estão presentes muitas pessoas, organizações, políticos, companheiros de trabalho, instituições científicas, amigos, o que seja. Agora, eu peço para meu filho, porque estava todo mundo trabalhando. Marcos (secretário) estava trabalhando, eu estava trabalhando. Havia pouco tempo. E peço para meu filho: Alejandro faz um favor para mim? Manda os e-mails para as pessoas que estão em nossa mala direta. Ele pega toda a mala direta e manda toda para cada uma das pessoas. Eu falei: o que fizeste, maluco! Passaste toda nossa mala direta para todas as pessoas? Agora o que vai acontecer? As pessoas vão ficar cabreiras comigo, vão achar que eu exponho o endereço eletrônico delas, vão pensar que eu sou uma pessoa no mínimo irresponsável e que não tenho a menor privacidade. O garoto ficou super surpreso com minha raiva, minha indignação, por ter feito essa indiscrição. E fiquei muito preocupado com isso. Até que no sábado, de noite, olhando as estrelas em Araras desde a varanda de uma pequena casa que alugo, eu estava muito angustiado e pensei: não, não é indiscrição nenhuma, eu não fiz nada, não falei da vida íntima de ninguém. O que acontece é que eu trabalho como psicoterapeuta. Para mim o sigilo é fundamental em todos os meus atos. Eu não falo nem sequer o nome de uma pessoa que trabalha comigo, não falo para ninguém. Então, com toda essa história, dentro deste trabalho, eu sentia que isso que o garoto tinha feito, um adolescente de 20 anos, tinha sido um desastre. Agora, em determinado momento eu senti: não, não é um desastre nada. E o que acontece: parabéns garoto, você ajudou a me comunicar com as pessoas como rede porque você está fora de minha história. Ou seja, ele não é psicoterapeuta. É um adolescente de 20 anos, que nem sequer conhece nada do que tem a ver com sigilo. Então, como ele fez? Ele mandou toda a mala direta para todas as pessoas. E aí eu comecei a pensar em outra coisa, depois de esclarecido isto que tem a ver com como se comunicar, eu fiquei pensando: mas por que eu estou nisto, passei a me interrogar sobre os porques? Eu estava tão contente trabalhando na minha casa, no meio do mato, com o barulho do sapo martelo, com os macaquinhos, e me enfiei nesse negócio de criar esta rede, não necessitando fazer isso. E depois pensei: mentira. Eu necessito fazer isso sim. E me lembrei do meu pai. Meu pai era uma figura muito interessante porque ele era uma mistura de empresário, diretor do Instituto de Psicologia da Universidade nacional de Buenos Aires, parapsicólogo e comunista. Tudo junto. Ele sempre via o homem do século XXI, e falava: no homem do século XXI, o amor vai ser livre, todos vamos nos comunicar com todos, todos vamos ser amigos. O homem do século XXI vai ser fantástico, você vai ver Edgardo. E eu que estava estudando psicologia falava: não, não, não. E ele: sim, sim, sim. O homem do século XXI vai ser muito mais feliz. E então percebi o que eu estava fazendo com esse esforço de formar redes: criando o mundo que ele teria gostado de conhecer. Quando eu percebi isso, disse para mim mesmo: olha que interessante! Eu estou criando, tentando ajudar, colaborar para criar um mundo que ele teria gostado de conhecer, nesta entrada do século XXI, portanto, os por quês. Falei por telefone para meu filho: “obrigado meu filho, Alejandro, parabéns para você”. Você me abriu as portas de uma forma que eu não conhecia e foi nesse como que se deu a mudança. E esta reflexão com respeito aos porquês, com respeito a meu pai, com respeito a minha história, foi depois de eu reconhecer a utilidade e legitimidade de seu ato. Aí liguei para ele e pedi mil desculpas, falei que o adorava e que tinha sido legal, que ele havia me ajudado nesse problema. A vergonha, o medo a indiscrição, a falta de respeito a intimidade do outro é um tema meu, de minha vida, gerado nas carateristicas de meu trabalho.

 

 

Faixa 15 - Pedaços de uma história na percepção sempre parcial dos sistemas: uma experiência pessoal

 

 

     Pergunta e intervenção da platéia. É o seguinte: achei bastante interessante, muito elucidativo, com muito conteúdo sua história de vida. Eu queria que você falasse um pouco a partir de que momento e a partir de que marco, desenvolveu em você essa vontade de passar toda essa bagagem do teu conhecimento acadêmico, científico, para a coisa mais humanista, voltado à uma causa, dessa rede. A partir de que marco isso surgiu ou se você já traz isso desde que você começou. Acho que isso vem com a maturidade e com a experiência mesmo. Eu só queria saber da tua história. A partir de que momento isso surgiu?


     Bom, o interesse por aquilo que está além de meu umbigo faz muitos anos. Surgem na casa do papai e da mamãe e continua nas universidades com os que foram mestres. Quem foi meu mestre fundamentalmente lá na Argentina, o chamávamos Henrique. Seu sobrenome era Pichón Rivière. E Henrique sempre falava para mim: quando tu quizeres entender um paciente, não olhe só para ele, vá para sua casa, converse com sua mulher, converse com sua empregada, se tiver, e olhe para o cachorro. Preste muita atenção no que o cachorro faz. Além de ver o cachorro, a mulher, a empregada, tudo isso, falava também: olhe para a sociedade! A sociedade na qual tu estás. O que essa sociedade está te dizendo e tu a eles. Ou seja, com isto quero te dizer que o interesse pelos seres humanos em percepções sistêmicas e em rede é uma coisa antiga.


    Agora, eu fiquei recolhido durante mais ou menos oito, nove anos. Quando eu acabei com a universidade, ou a universidade acabou comigo, fui à praia. Eu queria ajudar os rapazes da praia. Fantástico porque eu ia à praia com meu filho. Ele era adolescente, pegava onda. Eu estava na praia tomando água de côco, tudo legal e as pessoas me solicitavam ajuda. E qual era a ajuda? Qual era o tema? O tema era drogas. Eu diria: eu não tenho nada contra as drogas, eu tenho algo contra que os seres humanos se machuquem. Isso pode ser feito de qualquer forma. Com droga, sem droga, com isto ou com outra coisa. Mas que a droga ajuda, ajuda. E pode ajudar muito a machucar muito e muito feio. Mas essa chamada substância não era o problema fundamental. O problema eram os garotos que criavam a identidade de viciados. Porque criando a identidade de viciados, era aí que aconteciam as coisas ruins. Porque eles formam uma identidade chamada negativa, se marginalizam e depois atacam e depois sofrem e são atacados e entram num mundo realmente muito perigoso para ele e para os seres humanos que o rodeiam. Então eu trabalhava na praia e dava remédios florais aos rapazes. Mas eu não tinha percebido que no sistema praia observado desde outra perspectiva haviam traficantes e que os traficantes eram os donos políticos do pedaço. E os traficantes pensavam: o que esse argentino maluco está fazendo aí, dizendo aos garotos que não são viciados e que tal coisa ou outra quando nós queremos criar a cultura do viciado, porque por intermédio disso é que obtemos nossos clientes. Me ameaçaram, a mim e a meu filho. Aí fiquei muito triste e saí da praia. E senti: além das universidades esta tampouco é minha praia. Aí saí. Fiquei muito solitário durante 8 anos, na minha casa. Tenho o privilégio de morar no meio do mato. E durante 8 anos escolhi meus interlocutores, que alguns deles estão aqui: Glória, Ilene, Katia, Bicalho, Marita. São pessoas que me acompanharam durante esses 8 anos. Então eu conversava com um grupo muito reduzido de pessoas, mas que eu escolhia conversar com eles porque eu me sentia bem conversando com eles, meus interlocutores.

 
      Um dia, eu já estava sentindo que necessitava conversar com mais pessoas. Olhava no espelho, os cabelos iam ficando brancos, e eu dizia a mim mesmo: não, espera aí, não pode ser, isto está muito bem, ficando aqui com tempo para ler, estudar, falar com meus alunos mais imediatos, mas eu tenho que fazer algumas coisas antes de morrer...Aí chegaram algumas pessoas na minha vida. Um alemão vem a minha casa e me tira. E me diz: vou te levar para que veja um lugar sagrado, para ver qual a sua opinião. Isso por um lado. Por outro lado ia gerando em mim essa vontade de conversar com as pessoas. E estou aqui.

 

 

Faixa 16 - Meditação com música: desenvolvendo a consciência do ecofeminismo e da ecologia profunda.

 

 

     E esse workshop, e essa minha vida, e essas culturas que estamos querendo transmitir, têm um ideal que como falei é ecofeminista e de ecologia profunda e que está presente também em uma música que eu gostaria que escutássemos para podermos nos separar pelo menos por agora.

      Vamos escutar essa música respirando e prestando atenção especial à respiração. Primeiro ficando frouxos, cômodos, o mais cômodo possível.
É uma música de flauta, inspirada numa tribo que são dos índios navajos, perto do Grand Canyon, nos Estados Unidos.
Então vamos respirar profundo, profundo...
E vamos nos concentrar em nossa mãe, nossa deusa, nosso planeta, a terra – Gaia e respiremos com o âmago dela...

 

MÚSICA DE FLAUTA (ABRE) Interprete : R.Carlos Nakai, Canyon Trilogi Native, American Flaute Music

Respirando...respirando...
Soltando ar velho...trocando-o por ar novo com esse som que sai de dentro do nosso âmago de nossa deusa, nossa mãe, nosso planeta, a terra...
Bom, vamos abrindo os olhos...
Boa noite, que durmamos bem e que amanhã seja um dia bonito.

 

MÚSICA EM LADINO (ABRE) Interprete : Fortuna, Musica: Daile a cenar

Edgardo Musso

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